Funcionário denuncia Supermercados Mundial por intolerância religiosa

Rafael registrou da denúncia na DECRADI/Foto: Thiago Brandão.

Por Alessandro Valentim

Um funcionário da rede de Supermercados Mundial acusa a unidade de Ramos de intolerância religiosa após ser demitido na última quarta-feira, 07. Rafael da Silva Oliveira, que trabalhava como locutor da rede, é sacerdote de culto afro-brasileiro e afirma ter sido perseguido após ir trabalhar com uma máscara estampada com o Orixá Ogum, símbolo das religiões de matriz africana. O fato ocorreu no dia 17 de junho.

A vítima conta que no dia foi chamada à sala da gerência e obrigada a trocar de máscara pelo gerente da loja. No mesmo dia, Rafael foi transferido de unidade e a partir de então passou por sucessivas mudanças em seu horário e local de trabalho, sem aviso prévio. Segundo a vítima, nas últimas semanas foram cinco transferências de local e oito trocas de horário de trabalho.

Na última sexta-feira, 02, o então funcionário foi até a sede da empresa, no bairro de Inhaúma, denunciar a suposta perseguição por parte da gestão. Menos de uma semana após a queixa, Rafael foi dispensado do trabalho. Ao questionar o motivo do desligamento, a vítima conta que foi coagida a assinar o documento e que seguranças à paisana o acompanharam enquanto ele tentava ligar para o ‘’Disque 100’’ e comunicar o ato de intolerância. Isso culminou numa crise de ansiedade, o que fez com que Rafael se trancasse no banheiro por três horas com fortes dores musculares motivadas pelo curto espaço em que permaneceu sentado.

”Perdi meu emprego por causa da minha fé’’

‘’O gerente começou a me questionar e gritar sobre a máscara, dizendo que não era o padrão. Porém, haviam outras pessoas usando máscaras de time e outras escrito ‘’fé’’. Depois disso fui transferido, mudaram meu horário e agora me mandaram embora após a minha denúncia ao RH da empresa’’, afirmou Rafael.

O relator da CPI que investiga a intolerância religiosa no Estado, o deputado estadual Átila Nunes, prestou assistência jurídica à vítima, que só aceitou sair do banheiro acompanhado do assessor do parlamentar, que seguiu com Rafael até a Unidade de Pronto Atendimento do Complexo do Alemão.

‘’Uma empresa deve contratar ou desligar um funcionário por razões de competência e conduta profissional, mas jamais por questões raciais, de gênero ou religiosa. É gravíssimo o que aconteceu com Rafael, considerando que após ter que retirar a máscara, ainda foi transferido de unidade e horário. E quando confiou na administração da empresa para contar o que estava acontecendo, perdeu seu emprego’’, disse o relator da CPI da Intolerância Religiosa, Átila Nunes.

O primeiro atendimento médico prestado à vítima foi pela equipe do supermercado. A rede explicou à equipe do parlamentar que a possibilidade de mudanças no horário e transferências de unidade estão previstas no contrato de trabalho e que as máscaras são padronizadas, embora alguns funcionários usassem máscaras com outras estampas.

A ocorrência será investigada pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância DECRADI, implementada em 2018 através de um projeto do deputado Átila Nunes. A especializada também investiga outra denúncia da vítima, feita em setembro de 2020 quando Rafael foi expulso de uma corrida de aplicativo por estar vestido com roupas do culto afro-brasileiro.