Exu te ama: autor desmistifica os guardiões

Adriano Paciello, autor de ''Exu te ama.''/Foto enviada pelo autor.

Por Alessandro Valentim

Adriano Paciello encontrou uma maneira diferente de falar sobre Exu. Sem características que levam à demonização, errônea, dos chefes da porteira, a obra narra a história de dois irmãos que 50 anos depois de assassinados, vivem uma nova história juntos, sendo um encarnado e o outro seu Exu.

Livro ”Exu te ama”./Foto Reprodução.

 A narrativa se dá aos olhos do guardião, que guia a reencarnação de Pedro com interferências indiretas sem prejudicar o livre arbítrio do irmão. Uma boa sacada da trama é justamente mostrar como Exu age, como Exu pensa e como Exu pode ser seu anjo protetor, porém justo e imparcial.

Quando começou a escrever?

Sempre fui criativo. Desde pequeno, adorava ouvir histórias e foram elas que me incentivaram a querer criar as minhas. Não posso pontuar o exato momento que comecei a escrever, já gostava de fazer isso desde cedo. Aos 16 anos, passei um amigo em redação, fazendo dezenas delas, sempre com nota máxima. Mas foi somente aos 21 que comecei a escrever contos. Escrevi meu primeiro livro aos 22 anos, quando já estava decidido a ser escritor. Aliás, devo a essa escolha o meu diploma. Eu me formei em Letras graças a um prospecto mentiroso da universidade, que dizia que meu curso preparava o aluno a ser escritor. Hoje, 25 anos depois, escrevi 10 livros didáticos, 22 romances, 10 infantis. Além do blog no qual me dediquei por 8 anos, o paciello-cazzo.blogspot.com.br, e deixei mais de 440 textos.

Qual a importância de uma literatura voltada às religiões de matriz africana?

Desde que (re)descobri a Umbanda, percebi quão cruéis e infundados são os ataques a religiões de matrizes africanas. Principalmente por a Umbanda se assemelhar ao candomblé, que sofre ataques constantes, por racismo puro. E isso é inaceitável, porque os rituais do Candomblé se assemelham a outras crenças e estas não sofrem a mesma retaliação. O livro acaba sendo uma oportunidade para que a ignorância não sobreviva.

A intuição ajuda na construção da obra?

Muito! Ela acaba sendo uma forte aliada a tudo na vida e, na literatura, não seria diferente. Mas de nada valeria se o autor não tiver uma boa formação. Não existe autor sem antes vir o leitor. Ter uma boa base do que funciona ou não é tão importante do que a intuição. Lembro que, na faculdade, um professor de Literatura Brasileira me disse que não importava o que se contava, mas como isso era contado. Então saber contar uma história, uma boa história, é primeiro se prover de excelentes narrações. Quem primeiro deve gostar da história é o autor, sempre escrevo para mim antes de tudo. Se eu gostei, tenho certeza de que consegui compor uma boa ficção.

Qual o diferencial de ”Exu te ama?”

Se pudesse escolher, escolheria dois, de imediato: o título e a capa. Quem assina a arte é a talentosa Zana, que emprestou sua habilidade pra ajudar na divulgação do título.  Ambos são um belo chamariz ao teor da ficção. Acredito que a narração feita por Exu, mesclando fatos e ensinamentos, ajuda o leitor a entender melhor esse mundo das entidades e de como Exu trabalha. Uma boa história tem de vir representada por um bom título e uma boa capa, também.

Como a linguagem do livro contribui para desconstruir a imagem ”demonizada” do povo de rua?

Simples, dizendo a verdade. Não quis colocar no livro uma defesa, como se tivesse de justificar que todas as barbaridades que espalham sobre Exu são irreais. Longe disso. Quem lê, mesmo os preconceituosos, percebe a força que a esquerda na Umbanda tem, longe de qualquer carga negativa, pelo contrário, é recheada de amor e de fé. É um relato imparcial e genuíno, e a narração prende o leitor, porque simplesmente ele não espera ler o que está lendo.

Adriano Paciello, autor de ”Exu te ama.”/Foto enviada pelo autor.

Podemos aguardar uma continuação do livro?

Muitos leitores me pediram isso. Eu sinceramente não estou pensando no assunto. Acredito que num livro a melhor história é aquela que não foi contada. Esse sabor de “quero mais” acaba sendo um convite a deixar a imaginação alheia fluir melhor.

Vamos ver novos lançamentos?

Tenho mais de 30 livros escritos. Desses, apenas cinco têm teor de Umbanda. Não sou um autor umbandista, sou um autor cuja religião é a Umbanda e escrever sobre ela será sempre um deleite. Vamos ver o que está por vir.

Qual é a sua missão como autor?

Talvez, como todo romancista, passar uma mensagem. A maioria das minhas histórias continuam quando o livro é fechado. Gosto de fustigar na cabeça do leitor algo além da narração. Tento me aproximar da realidade de quem lê e principalmente uso a surpresa como arma aliada. Quem já leu minhas obras sabe que os finais são praticamente indecifráveis. Os temperos bons da vida sempre são bem-vindos, aliar uma mensagem boa para ela com a surpresa dá uma bela combinação, uma química viciante.

Você pode encontrar o livro no site da Editora Aruanda.