Papo e Bênção: Mãe Jacqueline caminha com Nanã

Mãe Jacqueline incorporada com o Orixá Nanã/Foto enviada pela dirigente.

Por Alessandro Valentim

Mãe Jacqueline é dirigente da Tenda Espírita Reino de Nanã e assim como a mãe da chuva, traz a ancestralidade como base para seus valores religiosos na condução do seu corpo mediúnico. Conheceu ainda jovem o poder dos caboclos, quando seu pai fez tratamento espiritual no terreiro contra um câncer. Naquele dia, Cobra Coral prometeu que ela trabalharia como seu menino, mas a história da zeladora foi além. Confira!

  • Quando conheceu a Umbanda?

Aos 19 anos, quando meu Pai foi fazer um tratamento espiritual para um câncer. Conheci a Umbanda e nesse dia, o Caboclo Cobra Coral me disse que um dia eu trabalharia igual ao menino dele. Eu tinha me apaixonado por tudo que havia visto naquela noite e perguntei a ele se poderia ser naquele mesmo dia. Ele sorriu e me convidou a desenvolver na casa dele. Era uma quinta-feira, noite de 1994. E desde então vivo o sagrado.

  • O que pensou na hora que descobriu sua missão como Mãe de Santo?

Que não era isso o que “buscava ou sonhava” quando entrei para a Umbanda e posteriormente para o Candomblé. Eu sempre desejei seguir ao lado da minha Zeladora, servindo ao sagrado, praticando a caridade, o bem e o amor ao próximo sem a intenção de ser uma Yalorixá. Mas entendi que Oxalá e Nanã me confiaram essa missão e eu que a aceitei antes de reencarnar. Assustei-me, tive medo, mas jamais deixaria de cumprir a missão que Oxalá e Nanã confiaram a mim.

  • Qual a maior dificuldade em liderar uma casa?

Harmonizar as relações humanas. São pessoas com histórias de vida, educações, hábitos, culturas, pensamentos e muitas vezes uma vida em Casas de Santo com hábitos, práticas e cultura diferentes da sua. Então, você como a líder do seu Axé precisa ter mão firme, paciência, compreensão para equacionar todas essas diferenças, manter o respeito entre os filhos dentro da individualidade de cada um sem nunca perder a mão na condução de seus filhos na direção de tudo aquilo que você acredita e quer para a sua Casa. Respeito tem que ser a base de tudo.

  • Como é a sua relação com seus filhos?

    Mãe Jacqueline em seu terreiro/Foto enviada pela dirigente.

Sou muito mãezona. Busco acolhê-los com todo amor, carinho e respeito. Creio que não podemos esquecer o quão importante é para um filho se sentir acolhido, querido, amparado e protegido por seu(a)  zelador(a). Cobro comprometimento com a Casa e digo a eles que se não buscarem individualmente sua própria evolução dentro da Casa deles, se interessando, estando presente nas funções, perguntando e servindo ao sagrado, afinal não posso fazer isso por eles.

Não me envolvo na vida fora barracão deles. A minha responsabilidade é com o Orixá deles não com o que eles fazem da vida pessoal. É claro que estou sempre à disposição para ouvi-los, aconselhá-los, dar colo, mas nunca determinei ou vou determinar o que cada um deve fazer de sua vida particular. Isso é da responsabilidade e do livre arbítrio de cada um. Ensino o certo e o errado e a partir daí é a consciência de cada um que vai levá-los a fazer suas escolhas.

  • O que mais lhe deixa triste e o que mais lhe deixa feliz nessa caminhada?

O que mais me entristece é ver a vaidade do ser humano se sobrepor ao amor, ao Orixá. Ver as pessoas chegando à minha Casa já preocupadas em quando vão tomar obrigação, em quando vão poder usar roupas como as minhas e sentar na cadeira de zeladora. Uma grande parte das pessoas está muito mais interessada em ter cargo e status dentro de um axé do que a servir ao sagrado. Sempre repito para os que me procuram e aos meus filhos: “quem não vive para servir, não serve para viver.” E servir ao sagrado não é ter status, roupas caríssimas, cargo e sim se dedicar, se comprometer com seu axé, acolher a assistência, estudar e verdadeiramente estar para o sagrado. Inevitavelmente a ingratidão também nos entristece, mas o tempo nos ensina a lidar com isso.

O que mais me deixa feliz é o Orixá em terra, a satisfação dele com tudo o que faço para ele. E ver o Run emocionante, vibrante do Orixá, sentir a energia que emana do Orixá e ver a satisfação dos Caboclos, Pretos-Velhos, Boiadeiros, Ciganos, Exus e Pombo Giras com os trabalhos realizados para eles. E claro, ver os resultados de todos os trabalhos realizados no meu Axé.

  • Quem é Nanã na sua vida?

    Mãe Jacqueline em sua casa/Foto enviada pela dirigente.

É a minha vida. O ar que eu respiro, a luz que me ilumina, o sol que me aquece, minha paz, meu acalanto e minha sabedoria.

  • O que Jacqueline ensinou para a Mãe Jacqueline e o que Mãe Jacqueline ensinou para Jacqueline?

Jacqueline ensinou para Mãe Jacqueline como ser didática. Levou a pedagoga Jacqueline para a Mãe Jacqueline dentro do Axé. Mãe Jacqueline ensina a Jacqueline todos os dias a ser paciente, compreensiva, equilibrada e ponderada. Mãe Jacqueline ensina muito mais a Jacqueline do que Jacqueline ensina a Mãe Jacqueline.