Papo e benção! Mãe Laura de Oyá fala como lidar com desavenças no terreiro e o papel do jovem umbandista

Mãe Laura Gallo da Casa de Caridade Santa Bárbara e Iansã/ Foto retirada do instagram da dirigente.

Por Alessandro Valentim 

Não foi fácil para Mãe Laura aceitar sua missão como zeladora. Mesmo com familiares de raízes na umbanda, ela não tinha afinidade e seguiu por outros caminhos. Foi católica e kardecista até o dia que ‘’passou mal’’ próximo a um terreiro, o qual ficaria por pouco tempo e viriam as visões e intuições. Em busca de fazer mais caridade, aceitou o convide de seu ex-genro e realizou estudos e trabalhos em seu espaço. Por intuição, começou a fazer atendimentos em casa e a cada dia chegavam mais consulentes. Conheceu um Pai de Santo que a fez dentro de seu axé e hoje é cuidada e segue os ensinamentos da chefe de sua coroa, guiando seu corpo mediúnico e fazendo a diferença com a Casa de caridade Santa Bárbara e Iansã.

NT: Qual a sua missão na religião?

Mãe Laura: Acredito que a minha missão na religião seja a caridade. Mesmo com o jogo de búzios, as pessoas me chamam muito para conversar e pedir uma orientação. Acho que tenho o dom de passar tranquilidade e equilíbrio. Uma coisa que tenho certa dentro de mim foi descaracterizar a questão dos exus serem demônios, diabos e coisas ruins. Isso é uma coisa que eu falo muito em todas as minhas giras. O que seríamos sem nossos porteiros, sem as pessoas humildes, as pessoas que realmente botam a mão em lugares que as outras não querem colocar? Como seríamos sem aqueles que abrem a nossa porta, aqueles que cuidam da nossa correspondência, aqueles que limpam nossa casa e os garis que tiram o lixo? São pessoas que merecem nosso respeito e nosso carinho porque sem esses grandes trabalhadores, né? Aí eu faço a comparação. São guardiões, caminho, proteção, amigos e leais. Então não existe essa coisa demoníaca e do diabo. Quem é o diabo? É aquilo que você propaga na sua mente, é o negativo que você cria. Então assim, existem os obsessores e existem muitas coisas ruins, mas isso está muito ligado também a sua vibração mental. Acho que o kardecismo me ajudou muito nisso. Minha gira de exu tem criança e não tem essa de que não podem entrar. Exu não faz maldade. Exu devolve aquilo que é seu, aquilo que você pediu e plantou.

NT: Como passar os valores das religiões para os jovens?

Mãe Laura: Eu acho que tem muito jovem disposto a seguir uma doutrina e uma religião. Hoje a gente vê muito jovem, tanto em outros segmentos como na umbanda e no candomblé. Para eles é menos mistério e mais clareza, mais verdade, mais convicção e fé. Eles não aceitam que você passe alguma coisa para eles sem ter fundamento. Ter um bom fundamento e explicar algumas coisas é fundamental no caminhar de uma pessoa em qualquer religião. Os jovens que tenho na minha casa falo com muita clareza, sem mistério. Papo limpo e reto. ‘’É isso?… Ah você não tá na hora de saber’’ Não, não concordo com isso! Acredito que temos que acompanhar a evolução da religião e desmistificar algumas coisas.

NT: Qual a importância do jovem umbandista?

Mãe Laura: Os jovens da nossa religião são nosso futuro. Vão levantar a bandeira do diálogo, da leveza, da música. Vejo jovens ligados aos pontos e pontos são louvores. Não adianta fazer uma obrigação sem saber os pontos, sem louvar e pedir. A palavra é o que tem mais poder em tudo aquilo que se faz. Eles são mais leves e entendem isso. Eu acho de suma importância e sei que alguns lugares fazem escolinha umbandista. Tenho vontade de fazer na minha casa. Já tentei, mas demanda tempo das pessoas. Existem escolas evangélicas e católicas, mas não escolas umbandistas. Elas poderiam ensinar outras matérias e ainda falar sobre nossa raiz e lendas, mas acho que ainda estamos longe disso.

NT: Já passou por um caso de intolerância? Como foi?

Mãe Laura Gallo no desfile do Salgueiro em 2019/ Foto retirada do instagram da dirigente.

Mãe Laura: Nunca passei por um caso de intolerância. Vivi uma situação um pouco triste quando fui convidada para desfilar em uma ala do Salgueiro em 2019, onde eu era realmente uma Yalorixá. Fui chamada pelo Carlinhos do Salgueiro, que cuido espiritualmente. Ele não me levou como fantasia, mas sim uma zeladora representando as situações que vivemos. Não foi em tom de brincadeira, foi uma homenagem. Inclusive, o samba era lindo e eu chorei muito. Depois fiquei sabendo que algumas pessoas ficaram chateadas porque tinham outras mães de santo, mais antigas, que ficaram de fora. Então acredito que este preconceito dentro da religião precisa acabar. Eu sou nova na religião, mas por isso não posso representar minha casa e a minha história? Então assim, intolerância eu não vivi, mas preconceito sim.

NT: Como lidar com desavenças no terreiro?

Mãe Laura: Prezo por uma conduta dentro da casa. Sou amiga de todos, mas tudo tem limite. Se alguém me chama para uma festa mantenho uma postura, sou uma zeladora. É preciso manter o respeito. Claro que tem fofoca e disse me disse, mas nunca atrapalhou. Se ultrapassar o limite convido a se retirar. Chegou aos meus ouvidos, converso e dou opção: melhora ou o convite é feito. Uma casa é feita de correntes e elos. Se um deles se quebra, a obra desanda. Preciso de pessoas que estejam pela casa e pelo trabalho. Não precisa me amar, mas precisa acreditar no trabalho feito e respeitar o próximo. Muitas casas se perdem por permitirem que isso se perpetue.

NT: O que Laura ensinou para Mãe Laura e o que a Mãe Laura ensinou para Laura?

Mãe Laura: O que Laura ensinou para a Mãe Laura foi educação, sou uma pessoa que tenho meus valores e convicções. Tento passar como zeladora aquilo que aprendi na vida. Acredito que ter um cargo de liderança em qualquer segmento religioso exige de você uma conduta e postura. Agora, a Mãe Laura ensinou para Laura muita coisa. Liderança, sabedoria, equilíbrio, o jogo de búzios que me permite ajudar as pessoas e ajuda minha alma a lidar com tantos corações e tantos problemas. Tornei-me terapeuta. Acho que meu jogo tem uma função muito mais terapeuta de amor, amizade, equilíbrio e saúde. Tantas pessoas receberam avisos de sua saúde e conseguiram chegar a tempo para resolverem. Então assim, aprendi muito com todas as pessoas que passaram na minha vida e Mãe Laura é responsável por essa gama de amigos e leque de conhecimentos que veio pra mim. Todos os amigos que conheci durante esses anos fazem diferença na minha vida. O que seria de mim sem minha casa? Toda minha família hoje gira em torno deste planeta e este planeta é a caridade. Tudo de bom na minha vida veio através dela. Apesar de ter lutado muito contra, vejo como foi importante aceitar minha missão e foi num momento de solidão, quando perdi meu pai. Aprendi muita coisa.

NT:  Como definir Iansã na sua vida?

Mãe Laura: Iansã é literalmente a minha mentora, minha amiga, aquela que eu escuto e converso. Eu escuto ela falando comigo, me orientando, o que é melhor e o que devo fazer. Quando, às vezes,  por algum motivo a Laura pensa em tomar uma medida, Iansã intervém e diz ‘’Isso não te diz respeito, haja como zeladora e não como Laura’’. Acho que pode até parecer loucura e falar para outra pessoa, mas digo com sinceridade. Escuto como ouço qualquer pessoa. É minha mãe, Iansã! Deu-me tudo na vida, coisas que seriam impossíveis. Tudo que ela quer, ela faz por quem merece. Senhora das causas impossíveis. E quando ela venta, ela venta para o melhor. E quando ela sopra brisa é para trazer tudo de bom. Iansã Onira na minha vida é meu amor, faz parte de mim. Ela é a vela do meu barraco e para que lado a vela for me levando, aceito com muito amor e carinho. Já imaginou montar uma louça de santo sem nunca ter visto? Escutar fundamentos sem nunca ter visto? Tem que acreditar muito no que escuta. Eu respeito muito sua vontade sem querer passar por cima. Não me acho maior que o Orixá, que é minha supremacia. Tem Deus e Jesus Cristo. Eu sou literalmente Laura de Oyá, aqui e em qualquer mundo.