Pretos-velhos fazem parte da história brasileira

Casa Pai Joaquim de Angola- Pai Beto/ FOTO: Henrique Esteves

Por Alessandro Valentim

Nossos amados vovôs e vovós sempre têm um ensinamento de vida para cada situação dos filhos. Considerados por muitos como os psicólogos da Umbanda, os pretos-velhos carregam a marca da escravidão em sua trajetória e usam a superação como exemplo em suas palavras.

Trazidos da África através dos navios negreiros, os escravos tiveram uma vida dura no Brasil. Foram submetidos à exploração infantil, sexual e de mão de obra, além das chibatadas amarrados nos troncos. Muitas vezes seus trabalhos eram recompensados com um pedaço de pão ou restos da comida dos homens brancos. 

 A criatividade se tornou aliada contra a fome e o tédio. Para muitos, a origem da famosa feijoada vem das senzalas e mãos calejadas dos nossos ancestrais, afinal precisavam pensar em maneiras para que o alimento rendesse e se tornasse saboroso, com o pouco que recebiam dos senhores e com o que a natureza dava. Já para passar o tempo e se divertirem outras heranças culturais surgiram. A roda de capoeira, o jongo, samba de roda, maracatu e tantas outras atividades.

 E se para o alimento e socialização precisaram ser criativos, com a fé não foi diferente. Obrigados pelos homens brancos a seguirem sua fé católica renegando seus Orixás, viram no sincretismo a solução para não serem castigados e ainda sim permanecerem com seus rituais. Utilizaram as imagens de santos católicos para representar seus Orixás, enganando os senhores, que acreditavam ter conseguido convertê-los. Além da explicação espiritual, algumas casas atribuem a quaresma a este período, quando os rituais afros paravam junto com os católicos, como disfarce. Em razão desse sincretismo é comum encontrarmos nos terreiros imagens como a de Santa Bárbara, São Jorge, São Sebastião e outras.

 A herança deixada pelos escravos está presente na nossa cultura, tradição, religião e até no vocabulário. Palavras que utilizamos no cotidiano têm origem afro e muitos nem sabem disto. Angu, cochilo, dengoso e fumo são algumas das palavras de origem Banto, linguagem de raízes africanas, que recentemente foi considerada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.  

 Ainda sobre as heranças, nas nossas veias corre sangue desses povos. Afinal, como na história do Brasil a socialização entre portugueses, índios e escravos trazidos da África foi tamanha, que somos uma nação miscigenada, ou seja, descendentes de diversas raças e etnias. Fato este que faz do racismo um preconceito muito ignorante, pois basta estudar um pouco da nossa história para saber que somos negros, brancos e um pouco de cada um que deixou sua marca na história do Brasil.

Após a passagem para o mundo espiritual, muitos escravos receberam uma missão. Trazer à Terra uma mensagem de superação. Suas experiências dolorosas não os impediram de criar, ter momentos de alegria e adquirir uma sabedoria única. A partir daí, a Umbanda nos consagrou com o privilégio de pedirmos a bênção para Pai Joaquim, Maria Conga e tantos outros amados pretos-velhos.