Comércio religioso registra queda em razão do novo coronavírus

Loja Abebê de Ouro fechada/FOTO: Alessandro Valentim

Por Alessandro Valentim

Com a determinação de fechamento do comércio, não essencial, durante o período de quarentena, lojas de artigos religiosos precisaram fechar suas portas e pequenos empresários, estão preocupados com o futura, já que em razão da suspensão temporária de sessões e giras, não estão recebendo novas encomendas.

 

Kátia Gonçalves, comerciante, que trabalha com vendas de quentinhas e complementa sua renda com pedidos de salgados, tortas e buffet em festas nos terreiros está muito preocupada com a situação. “Algumas pessoas mantiveram seus pedidos para consumirem em casa, mas não estão entrando novos pedidos e não consigo motoboy para entregar as quentinhas. Ainda não achei uma solução, mas tenho fé. O mais importante agora é salvar a vida das pessoas e sigo em oração”, desabafou Kátia. Essa preocupação é compartilhada por Francis Nascimento, que costura roupas de santo para médiuns. Embora também fosse um “extra”, a renda era fundamental para quitar dívidas e investir em outras necessidades. “Acredito que essa situação só vai se normalizar um tempo depois que o vírus for controlado. As pessoas estão se endividando e terão que organizar sua vida financeira, para voltarem a fazer encomendas. Terei que me adaptar”, disse Francis.

 

Sem previsão de retorno às atividades, comerciantes de todo o Brasil expressam sua preocupação e medo de perderem seus negócios. Com o intuito de salvar vidas, as portas foram fechadas, mas os empreendedores estão em busca de uma alternativa para não perder suas lojas. A tecnologia se tornou uma grande aliada na luta contra essa crise que não era prevista.

 

Diogo Bastos, proprietário da Abebê de Ouro, em Olaria, no Rio de Janeiro, não tem funcionários e o imóvel é próprio, porém o prejuízo se dá pelo fato de ser uma loja nova. Quando o coronavírus chegou, o comerciante estava em fase de conhecer as metas e alcançar a clientela. Pensando nisso, o proprietário criou uma lista de transmissão com os contatos dos clientes, no WhatsApp, e passou a enviar seus produtos para eles. Diogo também faz publicações nos grupos de vendas do Facebook. “O lucro não gira financeiramente uma loja, mas ajuda a manter seus gastos como luz, água, telefone e também na renovação das mercadorias”, explicou. 

 

Com a finalidade de garantir as vendas da Abebê de Ouro, Diogo aposta em produtos essenciais que são utilizados em casa, durante as preces e limpezas espirituais, como: velas, fósforo, incensos e defumadores. A ideia de praticar a fé em domicílio é compartilhada pela grande maioria dos zeladores. Para Renata Motta, do Centro Espírita Luz e Verdade, algumas medidas estão sendo fundamentais com seu corpo mediúnico. Para manter as atividades, mesmo à distância, são realizadas correntes de oração, no mesmo horário, de joelhos e até com a participação das crianças; Escutam músicas, brincam e trocam positividade sem focar muito nas redes sociais e jornais; Arrumam armários e gavetas, se desfazem do que não é mais utilizado a fim de renovarem as energias. “Assim estamos mantendo nosso dia a dia, até que tudo se normalize. Sabemos que neste momento a Terra está se curando”, disse Renata.

 

 Ary Guerreiro, proprietário da Casa São Jorge Guerreiro, no bairro da Pavuna, Rio de Janeiro, expressou sua preocupação com os funcionários e com o seu negócio. A solução encontrada pelo empresário está sendo cortar gastos, ajudar grupos culturais e outras instituições. ‘”Isso com certeza é o que mais me dói, não poder ajudar essas pessoas, ainda mais nesse momento. Nós doamos cestas básicas, materiais para os grupos culturais, mas agora não sabemos se teremos amanhã”, disse Ary. Outra preocupação do empresário são os trabalhadores que extraem as matérias-primas para a fabricação dos produtos religiosos, como olho de boi por exemplo. O proprietário afirmou que espera que o governo não deixe de cumprir com sua responsabilidade de não deixar essas pessoas desamparadas.

 

 Buscar crédito em bancos e negociar com fornecedores está entre as medidas que foram adotadas por alguns empresários, porém  sem previsão de normalização, muitos relatam dificuldades em conseguir um empréstimo ou prorrogação de pagamentos.

Loja Rei do Ketu fechada/ FOTO: Caio Simões, proprietário

 Caio Simões, proprietário da loja de artigos religiosos Rei do Ketu, em Araruama, na Região dos Lagos, tentou crédito em seu banco, mas sem sucesso. As negociações com fornecedores seguem, mas o empresário estuda maneiras para não perder seu negócio. Caio começou a utilizar o serviço de delivery. De acordo com o comerciante, quando os clientes vão até a loja para comprar velas, eles acabam vendo e lembrando que precisam de outro produto. No caso da entrega, a compra é bem específica, pois não há o contato visual. O proprietário lembrou que no período da quaresma, as vendas já costumam ser mais fracas e agora mais ainda “A fé não precisa de muita coisa, ela por si basta. Se a pessoa não puder ter uma vela ou bebida, aquela energia vai entender a presença daquela pessoa já será o suficiente”, comenta Caio.  Considerando este pensamento, o empresário espera que o governo ajude os pequenos empreendedores e trabalhadores o mais rápido possível e deseja que a situação se resolva para que eles não percam seus negócios. “Cada loja da nossa religião aberta é uma conquista de espaço da nossa ideologia e crença”, enfatizou.

 

 Até a publicação desta matéria, o presidente Jair Bolsonaro ainda aguardava o aval do Congresso para o gasto do projeto aprovado pelo Senado e sancionado por ele no dia 01/04 que prevê auxílio emergencial de 600 reais, durante três meses, para trabalhadores informais de baixa renda, trabalhadores autônomos e microempreendedores individuais (MEI). Mais detalhes do benefício podem ser encontrados no site: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/03/30/coronavirus-senado-aprova-auxilio-emergencial-de-r-600