Banto é considerado patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro

Gira no Templo de Oxóssi e Cabocla Jurema da Mata- FOTO: Henrique Esteves

Por Alessandro Valentim

 Linguagem praticada pelas religiões afro-brasileiras teve sua importância histórica reconhecida pelo Estado

Banto, linguagem utilizada nas religiões afro-brasileiras, foi reconhecida pelo governo do Estado como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, na última quarta-feira, 18. O feito enfatiza a importância cultural deixada pelos escravos, que derivou em diversas palavras da língua portuguesa e se faz presente nos cultos de matriz africana.   

Os Bantos foram um conjunto de povos africanos que tinham afinidades em seus hábitos, principalmente na linguagem. Foram os primeiros que chegaram ao Brasil e foram escravizados juntos com os índios. Essa relação entre povos originou festejos folclóricos, como: a capoeira, festas como reisados, congados, folias de reis, samba de umbigada etc. 

Gêneros musicais tiveram sua participação como o samba, bossa nova, coco, maracatu e pagode.  Mais tarde, com o samba de roda invadindo os terreiros, essa mistura seguiu para as cidades grandes contribuindo para a formação das escolas de samba e cortejo do rei do Congo.

 Patrimônio imaterial reconhece a cultura que não tem preço, mas tem valor. Entendem a importância histórica de algo e preservam para que seja repassado para as próximas gerações, ensinando os jovens e inserindo em projetos culturais do Estado.   

 A Lei, 8758 de 18 de Março de 2020, é de autoria do deputado Átila Nunes e teve contribuição do professor e historiador José Beniste, autor de livros sobre a cultura afro-brasileira. A Lei reconhece a contribuição não apenas na linguagem, mas em todos os principais aspectos da nossa sociedade que esses povos incrementaram com sua chegada.

Para o professor, escritor e babalorixá, Márcio D’ Jagun, reconhecer essas linguagens, Banto, Iorubá (linguagem de matriz africana reconhecida como patrimônio imaterial em 2019) e o Jeje (projeto ainda em tramitação) é um marco importante, pois exalta o empoderamento das etnias, valoriza o contato que tivemos com esses povos que tanto refletiu na nossa cultura. O escritor chama atenção para as heranças deixadas na nossa culinária, estética e arquitetura. “Esses costumes estão no nosso DNA e a cultura em nosso chão e num momento que a intolerância religiosa está tão grande, a responsabilidade de valorizar essa cultura é maior ainda”, disse Márcio D’ Jagun. Em sala de aula, o professor usa como exemplo as linguagens afro que adotamos, por exemplo, a palavra “caçula”, que utilizamos para identificar o filho mais novo, e que é de origem afro, sendo “benjamin” a palavra da língua portuguesa que identificaria esse filho.
O exemplo mostra como a sociedade adotou a linguagem, que embora seja mais utilizada nas religiões afro-brasileiras, faz parte do dia a dia de todos.

 Alguns exemplos de palavras com origem banto: angu, arengueiro, babar, bagunceiro, bajular, balaio, bamba, banana, banguela, batucada, bengala, budun, bugiganga, bunda, cabaça, cabaço, caçamba, cacete, cacimba, caçula, cafuné, cambada, candomblé, candonga, canjica, caolho, capanga, capenga, capeta, caruru, catinga, chacota, cocada, cochichar, cochilo, cuia, cuscuz, dendê, dengoso, dengue, dondoca, encrenca, enfezado, engambelar, farinha, farofa, fubá, fuxico, fumo, fungar, fuzuê, gamela, gingar, goela, gogó, gulodice, guloso, inhame, ioiô, iaiá, jagunço, jiló, lambança, lengalenga, maconha, macumbeiro, mandinga, manjuba, maxixe, miçanga, mocotó, moleque, moringa, mulambo, mulata, mungunzá, munheca, murrinha, pamonha, pança, papo, pinga, pito, quebranto, quiabo, quindim, quitanda, quitute, resmungar, rixa, rusga, sabugo, samba, samba, senzala, sinhô, sorumbático, sova, surra, tabefe, tabu, tanga, tangerina, tapear, tara, tarimba, tigela, toca, topada, tripa, troco, trumbicada, tutu, urucubaca, vatapá, xereta, ximbica, xingar, xixi, xodó, zangada, zarolho, zeca, zunzum.

 

 Essas informações históricas e mais detalhes poderão ser encontrados no texto do Projeto da Lei:

http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/scpro1519.nsf/18c1dd68f96be3e7832566ec0018d833/2efdb9e03da815f0832583150051d363?OpenDocument