“Mais um ano, é mais uma vitória da nossa fé”

Por Tião Casemiro

Vamos falar de duas coisas que acontecem nos terreiros de fé no fim de ano, tem alguns que vão tocar até o último sábado antes do natal. As pessoas costumam encerrar os preceitos nas casas de santo, uma semana antes.

Mas, na véspera de natal, os umbandistas gostam muito de, antes da meia noite, fazer uma oferenda para Oxalá, porque dia 25 é o aniversário dele.

A oferta normalmente é uma canjica, uma vela de 7 horas ou de 7 dias. Tem gente que coloca até de 21 dias, para alcançar a virada do ano.

Em 90% dos casos, se pede a maior riqueza do mundo, que é saúde. Além disso, também pedimos força e energia para começar um novo ano fortalecido.

Tradições 

Na minha casa por exemplo, o Centro Espírita Caminhos do bem, teve a confraternização no último dia 15, com todos médiuns. As crianças tiveram seu espaço para jogar bola, os adultos fizeram um churrasco. Energizamos os corpos de maneira diferente…

Muitas casas fazem giras externas, fora. A Umbanda é natureza, o orixá é natureza. Geralmente valorizamos os elementos, como mata, mar…

A Umbanda é muito interessante, ela religa religiões, mas cada casa tem um procedimento diferente. Vou dar um exemplo, só eu conheço mais de 4 mil terreiros no Brasil. Saio para conhecer muitos terreiros, mas não tem um que tenha o ritual igual.

História 

Antigamente a gente ia muito fazer a festa de fim de ano na praia, mas hoje é proibido. Era uma festa do Leme ao posto 6, do dia 31 para o dia 1, mas o então governo retirou! Isso tem cerca de 30 anos…

Comemorávamos Caboclo, Yabás, Exu, Pretos-Velhos e o brinde ao ano novo. Chegávamos de noite e saíamos da praia às 7h da manhã.

A Umbanda tem essa característica de abraçar todos, então quando chega essa época não falta festa. Temos giras, campanha de Natal…

Não falamos muito em réveillon. Nós utilizamos a expressão “mais um ano de vida”, mais um ano de vitória da nossa fé, da nossa religião”. Apesar de ainda vivemos na senzala. Senzala do racismo, do preconceito.

Evolução

Hoje em dia não são apenas negros e analfabetos nos terreiros. 90% por cento é branco e a maioria com estudo, mas ainda assim o preconceito resiste.

Antes sofríamos nas mãos da polícia, hoje já não é mais a polícia. São outras religiões que alimentam bandidos que escrevem em seus fuzis “Deus é fiel”. São eles que hoje invadem nossos terreiros e quebram nossos templos sagrados.

A gente torce para que essa perseguição pare, mas teve muita evolução, por isso que temos que comemorar por mais esse ano. Seja do jeito de cada vertente, geralmente o que vemos são mesas de oferendas aos orixás para agradecer pelo ano que passou.

Eu, por exemplo, só tenho que agradecer a Deus, aos orixás, às entidades, aos guias, por tudo que me proporcionaram. Me deixaram viver até agora, com meus 65 anos, e é por isso que cultuo a Umbanda com o maior prazer.

Conheça mais sobre o colunista Tião Casemiro, no canal dele no Youtube:

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Saravá, 2019!