Especial 111 anos: “Fé, eu nunca perdi na minha Umbanda…”

Por Tião Casemiro

Falar da Umbanda uma coisa interessante porque eu já passei da metade desses anos, pelo menos isso eu garanto, porque eu estou há 58 anos na religião e se ela está fazendo 111 anos… O que é esse parabéns para a Umbanda? É uma coisa que você vai ter que ir para uma data que não viveu, mas que você consegue se transportar para lá para poder buscar um assunto dessa religião.

A Umbanda nasceu através do caboclo das 7 Encruzilhadas lá em Niterói, se eu não me engano em Neves, e ela foi crescendo de uma tal maneira porque ela era pé no chão. 90% das pessoas que cultuavam essa religião eram negros, semianalfabetos… e ela foi evoluindo porque no início era muito perseguida, nós éramos perseguidos pela polícia, porque nos chamavam de feiticeiros e “mandingueiros”, a polícia chegava nos terreiros, quebrando tudo, levando tudo, até pai de santo, como eu já fui, quando tinha 9 anos, com um atabaque na mão, na estrada Grajaú-Jacarepaguá, fui levado para uma delegacia que tinha ali. E naquela época também não tinha delegado, era comissário de polícia e para bater o boletim de ocorrência levava 72 horas…

Bom, falar de Umbanda, é saber que se trata da manifestação do espírito para a prática da caridade, essas foram as palavras do Caboclo 7 Encruzilhadas. Mas tem alguma coisa que as pessoas precisam saber, é preciso saber mais 3 pontos importantíssimos: Na Umbanda não pode ficar parado (dentro dela), você tem que estar em movimento, não pode ficar pelos cantos de conversa na hora da corrente. Porque nós fomos ao terreiro, buscar na Umbanda, a luz, o movimento e a energia, mas se você ficar encostado na parede, afastado da energia positiva dessa gira, dessa corrente, você só recebe a carga negativa, por não estar interagindo na corrente positiva. Essa é a verdadeira Umbanda, ela quer você na gira, a palavra diz “gira”, isso é a Umbanda…

Eu posso dizer que eu, praticante, tenho a Umbanda como a minha válvula, minha vida, minha religião, mas não sou fanático, sou dedicado, conheço outras religiões, vou a todas quando me convidam, respeito todas e convido as pessoas para participarem da minha também, apesar do pé atrás das pessoas, por acharem que a gente cultua a macumba e o diabo…

A Umbanda é uma coisa muito linda, a Umbanda é uma casa que pratica caridade e não cobra nada de ninguém, a não ser itens necessários para as festas, como velas, etc. Nós não temos iates, não temos programa de televisão, a gente é pé no chão, a gente cultua o que é pé no chão, que são os orixás. Não consigo me enxergar sem a umbanda, fora dela, até porque já está enraizado, não tem como falar diferente, se falar de Umbanda, eu estou aqui, se falar de mim, fala de Umbanda.

Eu sou de uma família de 8 irmãos, mas só eu segui a religião: “Fé, eu nunca perdi na minha Umbanda…”. É uma coisa que eu gosto, faço porque gosto muito, sou feliz na Umbanda e sei que continuamos correndo atrás do respeito, porque não queremos ser tolerados, queremos ser respeitados.

Na verdade, somos criticados e sofremos preconceitos porque as pessoas precisam de alguém para apontar, para falar. Se não existisse a Umbanda e o Candomblé, qual religião os intolerantes iriam perseguir? O catolicismo? O budismo? O espiritismo? Mas já passou da hora disso acabar, são 111 anos de cativeiro. Está na hora de darmos as mãos e, se Deus me der vida e saúde, mesmo velho verei todas as religiões juntas, com seus direitos de cultuarem suas fés. Até porque só existe um único Deus…

Não são as religiões que cultuam o mal, a maldade está na cabeça das pessoas, é o que você deseja, o que sua energia diz…

Mas eu quero deixar aqui uma palavra de fé, deixar para meu povo de Umbanda um saravá e lembrar sempre que a Umbanda é luz, fé e caridade!