Especial 111 anos: Umbanda, congregadora de culturas

Por André Cozta

Em muitas ocasiões, nos apercebemos em discussões aparentemente nutridas de conteúdo, porém, banhadas em preconceitos, acerca das mais variadas manifestações culturais em nossa sociedade. Avaliações sobre formas como ocorrem tais manifestações, nivelando, taxando e conceituando conforme o julgamento de uma pessoa ou de um determinado grupo de pessoas.  E é neste momento que aparece o tal determinismo, citado por mim em outro texto publicado recentemente.

Determinam o que é cultura e o que não é. E se esquecem que toda a manifestação cultural é o que é, onde se manifesta, para quem se manifesta e por intermédio de quem se manifesta, uma expressão de um determinado grupo de seres humanos. Ainda nos falta, de fato e realmente, uma profunda compreensão da diversidade que há na sociedade em que vivemos. Quando conseguirmos absorver em nosso íntimo tal compreensão, então, mais cuidado teremos em nossas (muitas vezes) cruéis e taxativas análises.

Usemos como exemplo a cultura cigana. Quem de nós não cresceu ouvindo que todo cigano é ladrão, que devemos ter cuidado com estes homens e mulheres, que nunca devemos deixar uma cigana ler nossa mão na rua, porque eles andam por aí e não possuem residência fixa? Já, em algum momento, paramos para questionar qual foi o ponto de partida da disseminação deste preconceito? Ora, ciganos e ciganas são seres humanos livres que não correspondem às expectativas de uma sociedade enquadradora. A quem interessa que os vejamos desta forma?

Assim ocorre com várias culturas em nossa sociedade. Os índios, por exemplo, são taxados com adjetivos pejorativos no meio “branco e civilizado”. E nem estou citando o pesado preconceito racial em um país que teima em se dizer não racista, porque tem num negro, o rei do futebol, apesar de não proporcionar em sua sociedade, aos negros, as mesmas oportunidades dadas aos brancos.

O determinismo nos mostra, então, entre tantas outras coisas que os índios são vagabundos, os negros são inferiores e preguiçosos e que os ciganos são nômades e ladrões. E fiquemos com esta “Torre de Babel” a segregar todas as culturas populares nesta nossa sociedade pouco ou, quase nada, justa.

Porém, como a Justiça Divina a tudo vê, não tardou para que, por intermédio da fé, congregasse em uma religião todas estas culturas, a partir do lado espiritual da vida, a fim de  que trouxessem ensinamentos a todos, inclusive, aqueles mais severos críticos das culturas populares nesta nossa sociedade.

E foi a partir da Umbanda que estas culturas retornaram nos trazendo o amor de tantos guias espirituais, trajados em arquétipos discriminados ao longo da recente história deste jovem país chamado Brasil. Pretos Velhos e Pretas Velhas, Caboclos e Caboclas, Ciganos e Ciganas, Baianos e Baianas, Marinheiros, Crianças e tantas outras linhas de trabalho que se manifestam no ritual umbandista, formam esta congregação cultural a partir do lado espiritual da vida, que vem nos trazer uma reflexão acerca de nós mesmos. Reflexão esta que, ainda e infelizmente, é notada por poucos. Mas que, quando percebida, leva à conclusão de que podemos, a partir da Umbanda, construir uma sociedade mais justa, aqui do lado material.

Não deverá ser esta congregação cultural espiritual, muito mais do que um exemplo, um ponto de partida para que a reconstruamos aqui, no mundo material, com o propósito de fortalecermos e enriquecermos nossa experiência evolutiva na matéria? Reflitamos, então, neste momento em que comemoramos mais um aniversário da nossa Umbanda, pois,  somente a reflexão pode nos levar a uma conclusão limpa e sadia.

Um saravá fraterno a todos!