Valores para se orgulhar

O ano era 2012, e em uma das visitas que faço a casas, centros, tendas, templos e terreiros, estive em um localizado na Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro. Era um terreiro de Umbanda, bem intimista e que não utilizava os tradicionais atabaques em sua ritualística, o que é pouco usual. O ambiente era calmo, sereno e até mesmo silencioso. Havia um pequeno grupo de pessoas, que aguardava pelo início da sessão.

Daquela visita, recordo de um momento muito marcante, até hoje. Quando o médium incorporou o Caboclo da Lua, fui reverenciá-lo e, como gesto de respeito, abaixei minha cabeça à sua frente. Nessa hora, a entidade que ali estava, segurou firme o meu queixo e o ergueu de volta, dizendo: “Levante a cabeça, meu filho. Tenha orgulho de quem você é e o que você representa”. Fiquei muito emocionado com aquelas palavras e com o significado delas.

A Umbanda e o Candomblé são baseados no amor ao próximo, na caridade, na fé pelo bem e para o bem, valores que tanto faltam em nossa sociedade.

O que encontramos nas religiões de matriz africana é uma convivência harmônica onde as diferenças são respeitadas. Aquele que chega em um terreiro precisando de apoio, de uma palavra amiga, em busca de ajuda espiritual, será bem recebido independentemente da cor da pele, condição social, econômica, nível educacional, orientação sexual e, até mesmo, da religião a qual essa pessoa professa.

Todos que buscam um terreiro de boa-fé são bem-vindos. A mediunidade trabalha em afinidade com nossos irmãos para ajudar aqueles que chegam angustiados, desanimados e, até mesmo, desesperados.

A espiritualidade, através do corpo mediúnico, trabalhará para ajudar aos que tanto precisam. E, após toda essa comunhão entre o médium, a pessoa assistida e o astral, ninguém tentará converter aquele que foi ajudado, marcando, talvez, a maior diferença entre a nossa fé e as demais religiões.

Quando pensamos na sociedade em que vivemos é fácil perceber o quanto estão em falta os valores que são transmitidos para nós, em nossos terreiros.

Enquanto a nossa sociedade atual é ditada pelo materialismo exacerbado, a nossa religião foi fundada com a missão de se praticar a caridade, ajudando ao próximo que tanto precisa.

Se de um lado, no Brasil de hoje, o desrespeito aos mais experientes é a regra geral, com idosos sendo abandonados por suas famílias e descartados como um objeto sem valor, do outro, em nossos terreiros, pedimos a benção aos mais velhos por respeito a sua sabedoria e trajetória.

Enquanto a intolerância encontrou guarida e um ambiente propício para se propagar nas redes sociais, em nossas casas somos recebidos com carinho e vemos a convivência em harmonia, como regra, entre os diferentes.

Precisamos resgatar a verdadeira alma do brasileiro. Voltar a sorrir e confraternizar com nossos amigos e familiares. Se colocar no lugar de quem está passando por um momento difícil e estender a mão. Valorizar as pessoas por seu caráter e não pré-julgar alguém por sua crença, origem ou condição financeira.

Por isso, meus irmãos, falo com convicção: está na hora de reafirmarmos nossas crenças e valores. Não só por nós, mas pelo bem de nossa sociedade. Precisamos ter orgulho daquilo que somos e representamos. Orgulho da nossa fé!