Átila A. Nunes e abaixo-assinado popular se unem em representação no MPF contra livro considerado de cunho intolerante

Capa do livro de Edir Macedo: Orixás, Caboclos e Guias- Deuses ou Demônios?

Apesar do título e conteúdo polêmicos, considerados como apologia à intolerância religiosa, o livro “Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?”, de autoria do Bispo Edir Macedo, foi relançado no Brasil, na última sexta-feira, dia 2.

A obra, divulgada pela primeira vez em 1997, foi comprada por mais de 3 milhões de pessoas, mas trata-se de quase 120 páginas de incitação ao ódio religioso através de trechos como o chamado “De deuses a demônios”, que traz, entre as citações, a seguinte afirmativa do Bispo: “No candomblé, Oxum, Iemanjá, Ogum e outros demônios são verdadeiros deuses a quem o adepto oferece trabalhos de sangue, para agradar quando alguma coisa não está indo bem ou quando deseja receber algo especial”.

O Vereador do Rio de Janeiro, Átila Alexandre Nunes, anunciou que vai encaminhar uma representação, ainda nesta semana, junto ao Ministério Público Federal, contra essa republicação, que para ele, “claramente estimula o preconceito e algo precisa ser feito. Permitir a circulação de um livro como este é um grande erro, por isso nós não podemos nos calar e deixar que pessoas sejam influenciadas pelo preconceito, fruto da ignorância”.

Vereador do Rio de Janeiro, Átila Alexandre Nunes

Átila lembrou ainda que a notícia do relançamento chocou a comunidade de religiões de matriz africana e que, recebeu muitas mensagens de preocupação já que é justamente em decorrência da intolerância religiosa que casos recorrentes de violência são registrados, “ há centenas de terreiros, casas e axés sendo depredados e incendiados, mães e pais de santo sendo expulsos de seus barracões. Não podemos abaixar a nossa cabeça, temos que ter orgulho da nossa fé, até porque uma coisa é a liberdade religiosa e de expressão, outra coisa é a propagação desse ódio gratuito”, reforçou o vereador.

A Igreja Universal do Reino de Deus chegou a afirmar em nota que “Ao contrário do que dizem muitas falsas notícias, o livro não ataca nenhuma religião ou seus praticantes“, porém, em outra passagem do livro, no capítulo 4, intitulado de “Como os demônios se apoderam das pessoas?”, fica claro o objetivo de Edir Macedo, que é expandir a aversão às religiões como candomblé, quimbanda e Umbanda. Confira o trecho:

“Após a consulta, vêm as obrigações e os presentes àqueles que atendem pelo nome de orixás, caboclos e guias; na realidade, demônios. O “desenvolvimento” começa. Uma reunião aqui, outra acolá, a compra da roupa, etc. “Tem que entrar na “gira”. Não demora muito, outra bomba: “Tem de fazer cabeça!” A pessoa, muitas vezes sem ter noção, já abriu a sua vida para a atuação dos demônios; se entregou ao diabo e passa a ser mais uma de suas vítimas. Uma vez participante dessas falsas seitas, a hierarquia começa a ser seguida. Filha-de-santo, mãe-pequena, mãe-de-santo, babá, e por aí vai. O apelo também é à vaidade de cada um, e a cada “promoção” a pessoa vai mais e mais trabalhando para o diabo, sendo usada pelos demônios”.

Logo na introdução, Edir Macedo diz: “Há muito tempo venho orando por pessoas as quais na sua grande maioria tiveram ligações com o espiritismo nas suas diversas facetas. Milhares de pais-de-santo e mães-de-santo se transformaram em cristãos sinceros e tementes a Deus, após participarem de reuniões em nossas igrejas”. Já no trecho “A Realidade” ele é mais enfático ainda, “Orixás, caboclos e guias, sejam lá quem forem, tenham lá o nome mais bonito, não são deuses”.

Nas redes sociais, religiosos e simpatizantes se revoltaram com a nova divulgação do conteúdo e relacionaram aos sentimentos e casos vividos no dia a dia. O perfil de Valéria Tramontano, por exemplo, relatou: “Por causa da minha religião, me demonizaram para o meu próprio filho e meu ex-marido foi convencido que eu precisava de tratamento só por causa da minha fé”.

Em outro comentário, Carlos Eduardo Alves lamentou: “Que triste! Falta de conhecimento ou direcionamento proposital?”. A Claudia Arlequina ainda reforçou: precisamos do nosso direito respeitado, assim como respeitamos as outras religiões. Deus é um só e está em todas as coisas”.

Abaixo-assinado

A ACBANTU, Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu; o CENARAB, Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, além do CEN, o Coletivo de Entidades Negras, subscrevem uma petição online que está circulando para colher assinaturas contrárias ao relançamento do livro; “Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?”.

A ideia é conseguir 20 mil assinaturas e entregar o documento, de forma presencial, em Brasília, nas mãos do procurador federal responsável, até o fim deste mês.

Até o momento da matéria, a petição já reunia mais de 19 mil assinaturas

O link para participação no abaixo-assinado é o:

https://secure.avaaz.org/po/community_petitions/Tribunal_Regional_Federal_da_1_Impedir_relancamento_de_livro_Orixas_Caboclos_e_Guias_Deuses_ou_Demonios/details/.  O livro do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, chegou a ter a circulação proibida pela justiça em 2005, porém a decisão foi derrubada em 2006.