Agô: a história da fotógrafa que dedica seu trabalho às religiões de matriz africana

A fotógrafa Roberta Guimarães. Foto: José Afonso Junior

Quando ela e as 5 irmãs ainda eram crianças, entre 3 e 8 anos, a mãe as levava para ver a entrega dos presentes a Iemanjá nas praias de Olinda e Recife, em Pernambuco, no Nordeste. A lembrança daqueles momentos é de muita energia, mesmo sem entender bem do que se tratava. Anos depois, já no ano de 2009 ela começou a acompanhar as caminhadas de terreiros, na capital pernambucana e se sentiu em um reencontro com o passado.

Roberta viu os filhos e filhas de santo vestidos de forma impecável, desfilando pelas ruas com grande orgulho. Nesse mesmo período, estimulada pelo que vivenciava, mesmo sem ser iniciada na religião, ela começou a se aproximar de alguns autores africanos: Chinua Achebe, Ondjaki, Chigozie Obioma, Agualusa e Mia Couto. Desse último, ela destaca um conto em especial “O Embondeiro que sonhava pássaros”. A leitura a fez refletir sobre temas como: racismo, intolerância, amizade, preservação da natureza, colonização e transcendência.

Foto: Roberta Guimarães

A partir de então, a ligação fez com que a jovem, que começou a se interessar por fotografia antes mesmo de entrar no curso de jornalismo, em 1987, virasse Roberta Guimarães, uma fotografa que focou o seu trabalho em desvendar as belezas do Candomblé e da Umbanda.

Em 2013, ela já registrava mais de perto, as cerimônias realizadas dentro dos terreiros e hoje, com 55 anos, consagrada pelo seu olhar apurado para as belezas dos rituais e cores das casas de axé, a fotografa produziu por seis anos uma mostra que reúne uma parte dessas experiências, registrada em Recife.

Foto: Roberta Guimarães

Da parceria com o curador, Raul Lody, surgiu Agô. O nome da mostra foi inspirado no catálogo dele, que dizia: “Água, terra, foto e ar, AGÔ. Mitos, deuses, heróis, ancestrais, AGÔ”. Um pedido de licença, como pedir para entrar. Tudo no mundo tem seu dono e guardião e, por isso AGÔ. Exu, AGÔ, Ogum, AGÔ, Omolu, AGÔ. Todos os orixás AGÔ…”.

Roberta lembra que o processo de exposição foi muito trabalhoso, por envolver vários integrantes como produtor executivo, designers e montador, até que foi possível mostrar as 45 imagens, entre elas “dipticos e polípticos”, além dos vídeos (sobre itãs, os orixás Xangô e Iemanjá, um depoimento e um stop motion).

 

Foto: Jeferson- Oxum / Roberta Guimarães

Entre as mensagens que as fotos traduzem, é possível destacar a força do olhar do filho de santo Jeferson, cujo orixá de “Ori” (de cabeça) é Oxum. Foi com ele que Roberta fez o primeiro ensaio fotográfico. Ela foi até Goiana, cidade a cerca de 100 km de Recife, só para fotografá-lo e garante que ele foi importante por fazê-la refletir sobre a alteridade no Candomblé. O orixá principal do Jeferson é Oxum, de gênero feminino, e é essa possibilidade de “ser um outro” no Candomblé que se tornou muito instigante para ela.

Responder sobre a intenção com a mostra, foi fácil. Para ela, trata-se de alertar para a herança da cultura africana dos terreiros e levantar a importância dessa cultura, ainda muito carregada de preconceitos, porém de grande influência na formação da identidade brasileira e, por isso, é preciso conhecer a relação que as religiões de matriz africana possuem com a natureza, com a preservação e o respeito.

A Roberta de hoje, acredita que essas questões têm estado mais presentes não só na arte, mas também nas discussões da sociedade. Ela diz não acreditar que a sociedade brasileira está resolvendo o racismo religioso, por considerar que ainda estamos longe disso, mas acredita que chegou a hora de encarar o problema de frente.

Desejo pessoal? 

Independentemente do carinho e conhecimentos que tem em relação às religiões afro, Roberta não é batizada e por isso se vê perguntando para si mesma, quais os caminhos que um artista segue? Por que certas escolhas? Muitas vezes, reforça ela, “nem nós que produzimos, temos a consciência do que queremos, os caminhos muitas vezes nos levam para certos campos, que estão no nosso inconsciente”.  Como fotógrafa, o que importa para ela é saber que a religião de matriz africana traz uma cultura muito abrangente, através de suas danças, músicas, gestos e tudo o que a lente da sua câmera é capaz de capturar.

Foto: Roberta Guimarães

O impacto

Em visitas guiadas, o teor do comentário dos visitantes surpreendeu a fotógrafa. Boa parte deles nem sequer tinha ideia da beleza e complexidade da religião de matriz africana. Ela se orgulha pela relação positiva extraída a partir da visitação de universidades e escolas, em decorrência de um público formado por jovens que precisam conhecer essa herança cultural e se reconhecer nela.

Foto: Roberta Guimarães

Agô e Roberta

Antes de transformar a fotografia na forma de conquistar o seu próprio sustento, Roberta cursou Administração de Empresas. Em 1989 ela ingressou na Folha de Pernambuco, depois, já no início dos anos 90, foi para o Jornal do Comércio e abriu a agência Imago Fotografia com mais 4 fotógrafos, formando a primeira agência do ramo no Estado.

Agora, depois de firmar sua carreira com a mostra, que já passou por lá e pela Paraíba, a proposta é levar “Agô” para Porto, em Portugal, entre abril e junho do ano que vem. A intenção também é carregar essa experiência para a África na região do Benim e Nigéria.

Por enquanto, fora de cartaz, o trabalho tem convite para o Brasil, mais precisamente para uma galeria de São Paulo, mas para todas essas oportunidades ainda é estudada a viabilização financeira.

Foto: Saída de Oxum / Roberta Guimarães