Obá Nixé Kawo Kabiesilê!

A saudação é para Xangô que é conhecido, dentro da nossa religião, tanto na Umbanda quanto no Candomblé, como o senhor da justiça, Deus do trovão, Deus dos raios, o senhor que se transforma em bola de fogo, como se virasse a própria ira. Uma pessoa nervosa, por exemplo, se transforma em bola de fogo, de forma metafórica.

Uma coisa errada, relacionada a ele é que muitas pessoas quando tem que pedir alguma coisa para justiça, pedem para Xangô, nós não devemos pedir justiça para ele, todos nós somos errados. A gente pede tanto para nós, quanto para os outros e isso é complicado. A verdade é que temos que pedir “agô”, perdão, “maleime”, para que ele nos dê caminho e luz. A outra coisa que as pessoas fazem, e eu não concordo, é ver alguém acima do peso, careca e barrigudo, olhar e dizer que é o filho de Xangô, mas nunca vê um magrinho, e diz o mesmo. As pessoas associam o magro ao fraco e o gordinho ao pesado, ao forte. Mas Xangô não é medido pela rocha nem pelos raios, ele é medido pelo que acontece com as leis divinas, Xangô é cérebro.

Ele é caneta, porque é o senhor da justiça. Então não é pelo tamanho que temos que rotular, nós louvamos ele e colocamos como símbolo da pedra, pela dureza que ele é, mas a forma material, não precisa ser representada por gordo ou magro para ser filho de Xangô. São Jerônimo, por exemplo, que é o símbolo de Xangô na Umbanda, ele está sentado na pedra, tem um leão do seu lado e tem um livro e uma caneta nas mãos. Nós temos que ver realmente quem é aquela pessoa, isso não quer dizer que o sarado, forte, trabalhador é filho de Xangô, tem que parar um pouco para pensar no comportamento, até porque não pode dar santo pelo tamanho, tem que dar santo pelo que acha que se acredita.

Xangô é um santo onipotente, único santo que tem coroa de rei, senhor da cidade de “Oyó” e no Sincretismo Religioso ele é São Jerônimo, São João e São Pedro. Xangô vai ser ele sempre, em qualquer religião, mas em 90 por cento da umbanda vai ser um só. No Candomblé muda, a depender da casa, em decorrência da mistura de africanos, vindos para o Brasil, de várias cidades como Angola e Moçambique, que falavam diferentes idiomas.

Nos festejos de junho, Xangô pega uma parte da festa junina, e nós da religião, principalmente no Candomblé, fazemos a fogueira, outro símbolo dele, por ser correlacionado à bola de fogo. Nessas festas cultuamos os chamados santos de roça, de interior. Na religião católica mesmo, São João e São Pedro, o sincretismo deles vem do interior, não da cidade. Mas dentro da nossa religião, nem todas as casas comemoram a festa no modelo geral, e sim realizam a festa de Xangô, em diferentes datas de junho, com comidas de santo, como o “amalá”, além da cerveja preta. Mas a coisa mais interessante, é que independentemente da religião e crença, todos decoram seus espaços com a famosa bandeirinha. Nos terreiros antigamente isso era mais forte, hoje mudou um pouco, mas faz parte, é a nossa cultura, até por que nosso país é rico, temos mais de trezentas religiões.

O que marca Xangô é o “ibá”, o seu instrumento que é tipo uma canoa curta feita de madeira. Para vocês visualizarem vou dar um exemplo, você pega um mamão, corta no meio, fica parecendo uma canoa, e na parte de cima a gente faz um desenho para simbolizar o machado, de dois lados, que chamamos de “oxê”. O objeto significa as energias do Orixá, é com ele que Xangô faz trovejar, como se fosse aquele poder que vemos nos desenhos animados, como o He-Man, trata-se do poder da natureza.

Xangô representa o fogo, o trovão, a chuva e o ar, aliás, dizem que ele teve três esposas: Obá, Oxum e Iansã, sendo essa a que ele ia para a batalha, por ser mais poderosa, a Orixá dos raios e dos ventos fortes. Na verdade, para ser mais justo, todos, dentro dos seus setores são muito fortes. Por exemplo, Ogum é o senhor do aço, da agricultura, a força da terra.

Bom, eu sou confirmado Ogum Xoroquê, mas Xangô já é uma coisa de raiz, eu acredito que quando eu estava no ventre de minha mãe, alguém deve ter dito que eu era filho dele e isso foi se confirmando com um tempo. Mas eu reforço que na minha posição de ogã, eu preciso estar ligado a todos Orixás. Meu tio era de Xangô e ele me deu o tambor para tocar para ele, aos 7 anos. Então, Xangô na minha vida é mais uma questão natural e de afinidade, apesar de eu ter um carinho com todos.

Tenho músicas dedicadas para todos Orixás, mas tem uma que eu gravei, há mais de 10 anos, que é do falecido Ivo de Carvalho. O nome é Brado de Xangô, foi inscrita em quatro festivais e não entendo porque não foi premiada. Gravei na Argentina, no Uruguai, e ela é cantada, reconhecida na minha voz em todo Brasil e traduz o que ele representa:

 

”Ele bradou na aldeia
Bradou na cachoeira em noite de luar
No alto da pedreira
Vem fazer justiça, pra me ajudar…”.