Sacerdote de religião afro relata caso de intolerância em carta para a CCIR

Foto: Cléber Júnior, Agência O Globo

A onda de intolerância religiosa sofrida pelo povo das religiões de matriz africana, principalmente na Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio, teve mais um caso relatado em uma carta entregue à CCIR, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

Um sacerdote, de nome não divulgado, descreveu o problema das ameaças voltadas para as casas de Candomblé e Umbanda, comandadas por traficantes da região. Uma matéria sobre o assunto, foi divulgada nessa semana no site Notícias de Terreiro.

Abaixo a carta na íntegra:

“Por volta das 17h bateram no portão, três indivíduos armados com armas de fogo pequenas. Eles aparentavam ter entre 15 e 17 anos e falaram com tom de ameaça: “Ninguém quer mais macumba aqui! Tem uma semana pra acabar com isso tudo”, e saíram efetuando disparos para o alto. Os rituais foram interrompidos, a festa aconteceu na casa de uma amiga que, gentilmente, nos ofereceu seu espaço que fica em local seguro.

Após a festa, regressei a minha casa, que, além de templo religioso, é minha residência e da minha mãe… Tenho evitado sair à rua, pois, por duas vezes, fui abordado por eles, que circulam livremente, fortemente armados, e me perguntam: “Já acabou com a macumba?”. Além disso, o bairro está com barreiras nas esquinas, impedindo passagem de veículos. A cada dia expandem o raio demarcado. Suspendi também todos os atendimentos, atividades e consultas. Orientei aos membros da casa que não venham presencialmente na casa, mantendo contato apenas virtual e telefônico.

Na casa funciona também uma oficina de costura que produz roupas usadas na religião de matriz africana. Desde então, não posso atender os clientes, interrompendo as vendas e encomendas. Essa atividade é principal fonte de renda, que provem o sustento da minha família e da minha casa.

Moro ali desde que nasci. Meus avós maternos deram início à construção do terreiro nos anos de 1970. Somos três gerações de dedicação à construção dessa casa. É tudo o que temos e não temos para onde ir”.