O racismo religioso

No meio acadêmico das Ciências Sociais (Sociologia e Antropologia, especialmente) e até mesmo da Filosofia, muito se discute acerca dos conceitos de raça e racismo. Por que há quem defenda a existência, no caso da humanidade, de uma única raça: a humana.

E, a partir deste conceito, entendem que é na distinção de raças entre os humanos, baseada em suas características físicas, distinguindo as pessoas ou classificando-as em diferentes grupos sociais, que surge o primeiro passo para o racismo, que nada mais é do que o preconceito ou discriminação baseado em percepções sociais que se fundamentam na diferença física (ou biológica) entre os povos.

Trocando em miúdos: o povo A, com características consideradas, sabe-se lá por quem, superiores, é melhor do que o povo B, considerado, por este mesmo “sabe-se lá por quem”, inferior. E assim caminha a humanidade há milênios, sem um mínimo sinal de evolução da consciência, em que se possa superar esta ignorância, a fim de elevar o nível da nossa caminhada enquanto espíritos em evolução.

O racismo apresenta-se nos mais variados campos da vida social. E isto ocorre, simplesmente, porque tudo o que vivemos em sociedade é reflexo do nosso íntimo. Quando há um conceito sobre algo na nossa sociedade, ele é influenciador (culturalmente falando) de quem nela vive, mas, concomitantemente, é um reflexo dos sentimentos mais íntimos de muitos que vivem na sociedade referida.

Um conceito social só vigora quando encontra sustentação e, para isso, precisa vibrar por afinidade com aqueles que com este mesmo conceito se encontram. Então, o racismo é uma construção social, mas quem constrói a sociedade são os seres humanos que a compõem. Estes seres humanos sustentam estes conceitos. Porém, na nossa sociedade, há também aqueles que se encontram vibrando em outro grau de consciência e conseguem enxergar em conceitos de superioridade ou inferioridade racial, um tremendo absurdo! Estes podem ser os seres discriminados e que sentem o preconceito na pele ou, simplesmente, seres humanos que não sofrem tal discriminação, mas a enxergam como fruto da ignorância.

Deixemos claro: para a Umbanda, o preconceito é a maior erva daninha da nossa sociedade e só serve para atravancar a evolução humana e do planeta como um todo.

Afirmamos anteriormente que o racismo se manifesta em vários campos ou setores da nossa sociedade. E o campo religioso não está isento desta pitoresca manifestação da ignorância humana. Quando vemos atos ou ações de intolerância religiosa, aqui no Brasil, com relação ao culto aos Orixás Divinos, com certeza, estamos assistindo a uma manifestação de racismo religioso.

Por que, nos Orixás, temos uma classe de divindades que se manifesta por meio de arquétipos advindos da África, ou seja, para uma sociedade europeizada e com mentalidade elitista como a nossa, tudo o que foi classificado neste parágrafo, é de nível inferior.

Na Umbanda, temos a presença forte dos pretos velhos e pretas velhas, senhores e senhoras da sabedoria, manifestadores da sabedoria maior de Deus, que, no culto aos Orixás, vem na forma da arquetipificado por pai Obaluayê e mãe Nanã Buruquê. Temos, ainda, a também forte e fundamental presença dos Caboclos e Caboclas, que se apresentam como os nossos nativos brasileiros,  manifestadores e manifestadoras do Conhecimento, “arquetipificado” pelo nosso amado pai Oxóssi.

Vamos combinar: só neste último parágrafo, já encontramos bastante conteúdo e motivos, formando um prato cheio para o racismo religioso, não é mesmo?

Além disso, as nossas vestimentas ritualísticas, guias ou colares, entre outros elementos litúrgicos, remetem todos os que têm uma mentalidade discriminatória a uma manifestação religiosa menor, originada entre pessoas pretas, mestiças, pardas, mas, fundamentalmente, pobres.

Racismo e discriminação social se confundem, formando aquilo que entendemos como racismo religioso. É de fundamental importância que nós, umbandistas, conscientes deste problema, nos mobilizemos. Se devemos realizar esta mobilização buscando igualdade no meio social (e realmente devemos fazer isto), também devemos trabalhar, diuturnamente, na conscientização daqueles que estão ao nosso redor, sejam irmãos de fé ou não.

Ninguém é obrigado a enxergar Deus da nossa forma ou reverenciar do nosso jeito. Mas precisamos nos mostrar como adeptos de uma religião que traz em seu bojo muita complexidade (no sentido de profundidade e conteúdo), muita simplicidade (na forma e na manifestação) e uma amplitude capaz de alcançar os mais extremos polos cardeais e colaterais da Criação de Deus.

Se, há em uma parcela da nossa sociedade, o abominável racismo religioso, nós, que cultuamos os Orixás (bem como os pretos velhos, os caboclos, os exus, as pombas-gira, os ciganos, os baianos, os boiadeiros, os marinheiros, os piratas e pescadores e de tantas outras linhas de trabalhos espirituais), devemos nos transformar em “agentes da saúde espiritual”; aqueles que percorrem toda a área ao seu redor, trabalhando na limpeza e conscientização dos semelhantes.

Pois uma “fé poluída” pode ser considerada tudo, menos, saudável. Em verdade, nem pode ser considerada fé.

Que Deus, nossos divinos pais e mães Orixás e todos os guias espirituais da direita e da esquerda, nos auxiliem nesta batalha de extermínio da ignorância, começando pelos nossos íntimos e estendendo-se ao nosso redor, até onde nos for possível alcançar.

Um saravá fraterno a todos os irmãos e irmãs umbandistas!

                                                                                                André Cozta