Ogunhê!

Ogum é considerado o santo guerreiro, defensor dos oprimidos, dos fracos. Ogum não aceita covardia, suas ferramentas vêm do ferro, do aço, da agricultura. É o senhor de tudo que se relaciona ao metal. Nesses casos, a presença de Ogum está sempre ali. Cavaleiro fiel, grande mentor espiritual.

Eu, sou Ogã de Ogum, Ogum Xoroquê. Esse orixá maravilhoso é tudo. Você quer ver como é uma coisa maravilhosa? Ogum gosta de muito barulho. Se você chegar no terreiro e falar baixinho “ogunhê” (que é a saudação que os fiéis fazem para Ogum, quando surge nos terreiros), ele fica zangado. Tem que gritar forte, porque, segundo os antigos, na cidade africana de Irê, Ogum saiu para guerrear e quando ele volta para a sua terra, ele percebe um silêncio enorme, e ele gosta de agitação e barulho. Ele mete a mão no que chamamos de espada, mas lá é facão, e sai decepando as cabeças. Isso segundo a lenda, a história. Quando Ogum chega e pergunta ao líder da aldeia dele, para saber o que houve – sendo que ele corta as cabeças das pessoas primeiro, para depois perguntar – ele ouve que o motivo é que estava todo mundo em silêncio em respeito ao rei que voltou campeão e vitorioso da guerra. Ogum se revolta com ele mesmo e pede que a partir daquele momento, toda vez que ele voltasse da guerra, que tivesse muito barulho para receber o rei. Então, por isso que eu digo, toda vez que eu falo que Ogum gosta de barulho, é por essa história.

E você quer ver como é uma realidade? Todo filme de índio, principalmente índio africano, quando alguém volta da guerra, você não vai ver ninguém em silêncio, está todo mundo com uma lança na mão, segurando e gritando. Não existe silêncio, ninguém vai render ninguém. Ninguém homenageia ninguém em silêncio, principalmente ele, que quer ver todo mundo bem, quer saber se está todo mundo feliz, todo mundo a salvo e com saúde.

Ogum não quer saber daquele terror, aquele silêncio que causa medo. Até porque, realmente o silêncio nos causa uma preocupação. Todo lugar que você vai que tem silêncio, já fica assustado. Na verdade, a gente acha que o silêncio é sinal de coisa ruim. Então, ele já pede antes muito barulho: ele quer que grite “OGUNHÊÊÊÊ”.

Lembra dos festejos em homenagem à São Jorge? O que você escuta? É igual! Muito barulho, festa, fogos, alvorada de manhã. Então, você vai vendo que faz sentido. Ogum é isso. E eu gosto dessa história por causa dessa verdade: onde tem barulho tem Ogum. No carnaval, aquela escola de samba batendo, está todo mundo em harmonia, está todo mundo com alegria, ou seja, onde tem um barulho saudável, pode ver que está todo mundo com o pensamento bom, ninguém pensando em fazer loucura. Eu aprendi essa parte do São Jorge e fiquei analisando ela, porque eu gosto de compor. E quando escuto essas coisas, eu componho nesse contexto. Por exemplo, fiz essa música em parceria com uma amiga, o nome dela é Rosângela:

“Diz a lenda que Ogum bravo guerreiro, partiu para guerrear na cidade de Ará,

O mais valente, conquistando outras terras, batalhou em tantas guerras, o filho de Ododuá,

Em uma luta sangrenta, todo o povo ele afugenta, da cidade de Irê,

Mata então seu soberano, põe o seu filho no trono,

Ogum Erê…”

Ogum e São Jorge

Você vê que todo mundo gosta de Ogum e São Jorge. Todos chamam eles de protetor. Dia 23 de abril, você vai na igreja tem candomblecista, evangélico, católico. Independentemente da religião, está todo mundo de branco. Todo mundo faz a sua parte, todo mundo tem a sua crença. No fundo, no fundo, todo católico é umbandista.

Importância

Meu guardião, minha sentinela. Desde menino, eu tenho uma afinidade muito grande com ele. Na verdade, o Ogã tem que ser filho de todos os orixás, porque a intensidade que você louva um orixá, você tem que louvar o outro. Eu, pelo menos, sou assim, mas carrego comigo Xangô e Ogum. Eu sou suspenso e confirmado Ogã de Ogum Xoroquê, mas, antes de ser, eu já tinha essa paixão pela entidade, eu nem sei porquê…

Eu comecei a tocar atabaque com sete anos, meu tio me levava para os terreiros, ele era de Xangô. Eu batia em um balde de plástico e era o único da minha família que era praticante. Agora que tem meu irmão que está entrando para a religião. Meu tio foi e comprou um tambor pequeno, para eu tocar para ele, porque era eu que ia com ele, com sete anos, para o terreiro do seu Barreto, lá no Morro da Matriz, no Engenho Novo.

Quando fiz nove anos, comecei a cantar. Nasceu em mim, eu gostei e estou até hoje louvando meus orixás queridos.

Regência

A regência do ano que já está aí dada por muitos pais de Santo pelo Brasil e no Rio de Janeiro, mostram Ogum e xangô e correndo por fora Iansã, além de alguns chegaram até a contar com Nanã. Agora a regência do mês é uma coisa complicada porque cada dia é dia de santo. São 365 dias, cada um com um santo, é como se fosse um horóscopo. Não é exatamente por mês, é mais por dia, às vezes, frações de segundos. Abril é considerado um grande mês, a gente conta como o mês do guerreiro, que nos traz a vitória e está todo mundo prosperando nisso. Por isso, é considerado o mês regente de Ogum.