O axé te saúda

Mojubá, em iorubá, significa “eu te saúdo” ou “meus respeitos”. O nome e o significado forte, batizam o primeiro programa voltado para as religiões de matriz africana na Bahia, em Salvador, que é apresentado por uma mulher, negra e candomblecista. O informativo semanal, tem uma hora de duração, é ao vivo e vai ao ar todos sábados, na Metrópole FM (101.3 FM).

O projeto é da Jornalista Cristiele França e assim que foi apresentado foi autorizado imediatamente pelo dono, o radialista Mário Kértesz. Detalhe: ele é judeu.

A história dela com a religião começou logo cedo. Cristiele é filha de ialorixá e cresceu indo para o terreiro Ilê Axé Oyá Mesi. Acompanhava de perto as atividades no espaço até que a orixá Iansã a apontou para ser Ekedi, um tipo de zelador. Aos poucos, a menina foi se tornando uma mulher, aprendendo as responsabilidades que o cargo exige, a importância da defesa do respeito à fé e hoje, 25 anos depois da iniciação, ela afirma: “Não vou romantizar porque o caminho no axé não é fácil, mas com dedicação, tenho honrado a escolha que foi feita para mim”.

Cristiele, aos 9 anos, com a ialorixá Mãe Carmem

E é justamente esse cenário que faz Cristiele se sentir orgulhosa do seu papel, pela iniciativa de montar um programa com esse enfoque e a tomada de espaço que ele proporciona, mas ela sabe que ainda falta muito para ser feito.

“O programa ajudou a quebrar muitos paradigmas, mas ainda desnuda uma sociedade preconceituosa. Até para conseguir patrocínio é difícil porque muitas marcas são resistentes e, por puro preconceito, desistem de investir. Eles acham que vão perder clientes que não se identificam com a religião”, diz.

O nascimento do projeto ocorreu a partir da inquietude dela pela falta de um programa sério para falar sobre os aspectos das religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé em Salvador, uma cidade negra e reduto laico. Para ela, o que há é uma vasta oferta de conteúdos estereotipados, que muitas vezes, só reforçam o preconceito e o descaso com a cultura religiosa.

O Mojubá sempre conta com muitos convidados engajados e debates temáticos, o que o levou para o segundo lugar na audiência da emissora aos sábados. O programa vem conseguindo, além de alcançar as pessoas de axé, chegar aos simpatizantes e até fieis neopentecostais, que, respeitosamente, ligam para a redação para tirar dúvidas e fazer algumas colocações. Para Cristiele, isso só mostra que o povo de santo sentia falta desse espaço de fala e de representatividade.

Cristiele no terreiro Ilê Axé Oyá Mesi

O candomblé, principalmente, tem sido visto como uma espécie de modinha entre os mais jovens. A jornalista acredita que realmente há um grupo que se encanta e acaba se aproximando somente por ver beleza nos rituais, nas danças e nos cânticos. Mas ela alerta: “é preciso entender que o cadomblé é feito de fé, dedicação, abdicação e se a pessoa não tiver esses elementos, acaba desistindo. Para assumir um compromisso com esse tipo de religião, é preciso ter sangue no olho”.

Quando perguntada sobre sonhos, Cristiele França lembrou que tem uma filha de dois anos e espera que possa passar tudo o que a criança precisa saber sobre o que ela chama de empoderamento da fé. Assim como os assuntos que são abordados na rádio para alertar o povo de santo, a ideia é que ela possa transformar a menina, Emily Abayomi, em uma ferramenta futura de luta pelo direito de existência das religiões afro e o respeito pelas diferentes crenças.

Outro sonho é levar o Mojubá para o conhecimento nacional com a ideia de ajudar a findar a disseminação do ódio: “religião é para te religar com Deus, independentemente do nome que tenha e isso não pode significar o afastamento do próximo”.

Cristiele que também desenvolve oficinas de customização de turbantes, para reforçar a valorização da cultura afro, deixa uma mensagem importante ao povo ligado ao candomblé e umbanda: “A união é a chave para proporcionar muitas mudanças e ela é imprescindível no axé. Vejo que estamos avançando, conseguindo vitórias como a constitucionalidade do sacrifícios de animais nos nossos rituais, mas penso que precisamos ampliar essa consciência de grupo, de família, para todos os momentos.”

Cristiele França mostra um dos turbantes que ela ensina a fazer, nas oficinas realizadas durantes as feiras livres de Salvador