“Conto de Exu”, por Pai Thomé do Congo

Relataremos aqui, brevemente, uma série de situações que se passaram na vida de um determinado homem, ao qual não nomearemos. Em primeiro lugar, por que seu nome realmente não importa e, em segundo lugar, a fim de que a sua atenção se volte tão somente para o objetivo central deste relato.

Ele andava pela rua, certa tarde, visivelmente preocupado com o rumo que sua vida havia tomado. Era um homem de negócios, ocupava um cargo executivo importante em uma grande empresa. Como chefe que era, delegava funções aos seus subordinados. Em alguns momentos era implacável em julgamentos, em outros, encontrava no equilíbrio e na ponderação o caminho que o levava a tomar decisões acertadas. Era, tipicamente, um ser humano encarnado em evolução.

Naquela tarde, saiu mais cedo do trabalho e foi até um botequim que costumava frequentar, acomodou-se, pediu uma bebida e se pôs a pensar. Não entendia por que tudo na sua vida oscilava tanto. Se, era um homem bem estabelecido financeiramente, por outro lado, alternava entre altos e baixos emocionalmente, também na sua relação com colegas de trabalho e, inevitavelmente, com as mulheres.

Considerava-se um homem galante e conquistador, apesar de, quase nunca, conseguir emplacar um relacionamento com alguma mulher por mais de dois ou três meses. Tinha sua “visão” e sua “audição” espirituais completamente fechadas. Era um ser totalmente voltado para a matéria. Respondia automaticamente que acreditava em Deus, sem pensar no que dizia, nem, ao menos, como tantos, tentava imaginar como deveria ser Deus.

Rapidamente, colocaremos aqui três situações que ocorreram na vida deste nosso irmão, pouco tempo antes deste momento em que nos encontramos com ele.

1º Momento:

Numa manhã muito chuvosa, em que uma tempestade tomou conta daquela cidade, ele, reivindicava com seu carro parado à frente do portão da garagem da empresa, que o funcionário responsável o abrisse para que pudesse entrar, estacionar, acomodar-se no seu escritório e fugir da chuva. Mas o funcionário demorou a atendê-lo porque estava a poucos metros dali, socorrendo um cachorrinho que se afogava numa esquina por demais alagada.

Assim que retornou, pediu desculpas ao homem impaciente (que estava dentro do carro, são, salvo e seco) e que lhe proferiu uma série de impropérios, chegando, inclusive, às ofensas pessoais e familiares. Ciente dos problemas que poderia ter caso levasse aquela discussão em frente, o funcionário abaixou a cabeça apenas, explicou que o portão havia emperrado por conta da chuva e o abriu para que o homem entrasse.

Já acomodado em seu escritório (ele que, como já descrevemos, tinha olhos e ouvidos espirituais fechados), sentiu certo “incômodo”, como se houvesse algo ou alguém à sua volta que não podia identificar.  Sem que percebesse, um sorriso um tanto irônico circundava à sua volta. Sentia o tal incômodo, mas não sabia do que se tratava, então, concluiu que era coisa da sua cabeça, que estava nervoso pelo fato de não ter sido atendido quando bem entendia.

2º Momento:

Sete dias após aquele episódio, no fim de tarde, quando voltava do trabalho para casa, dirigia em alta velocidade. Parou em um semáforo. A avenida estava vazia. Apenas uma senhora de idade avançada atravessava a faixa de segurança. E, por conta da sua condição física debilitada, andava vagarosamente. O sinal abriu, a senhora ainda não havia atravessado, mas ele, apressado, afundou o pé no acelerador, atropelando-a. Não foi um acidente grave. Atingiu-a na perna, fazendo com que caísse. Imediatamente, parou o carro e, desesperado, foi socorrê-la e a levou a um hospital.

A senhora teve apenas um ferimento leve que foi tratado por uma médica que a encaminhou para casa em seguida. Ele, ainda preocupadíssimo e tomado por um enorme remorso, fez questão de levá-la em casa. Pediu desculpas a ela, aproximadamente, umas trinta vezes.

Aquela senhora, muito tranquila, no decorrer da viagem, sentada ao seu lado, em dado momento, fitou o rapaz e falou: “Meu filho, peço-lhe desculpas por me intrometer na sua vida, afinal, mal nos conhecemos, mas, percebo em você a busca por algo que, talvez, nem mesmo saiba o que é.  Se há em você um pseudovazio, saiba que é um equívoco da sua parte pensar assim. Por que você, o mesmo rapaz que me atropelou (e que poderia ter fugido e não me prestado socorro), foi o meu ‘salvador’. Poderia ter apenas me deixado no hospital, mas não, está me levando em casa e visivelmente preocupado comigo. Olhe bem para dentro de você, meu filho! Se assim fizer, tenho certeza, aplacará essa angústia que o acompanha.”

Uma lágrima correu em seu rosto, mas ele segurou o choro. Despediu-se daquela senhora com um abraço forte, deixando com ela um cartão de visitas com seus contatos e recomendando que ligasse para ele caso precisasse de qualquer coisa. Ela apenas deu um sorriso e falou: “Nós nos veremos em breve, meu filho!”

Assim que ela adentrou o prédio, ele começou a chorar copiosamente dentro do carro. Após alguns minutos, enxugou as lágrimas. Sentia-se bem, muito bem! Porém, como sua visão e sua audição espirituais eram fechadas, não pode perceber, naquele momento, certo sorriso irônico à sua volta.

3º Momento:

Numa das suas inúmeras tentativas em se relacionar com mulheres, conheceu por intermédio de um amigo uma moça que lhe chamara muito a atenção. Gostava de conversar com ela, considerava-a uma excelente companhia, compreensível, segura nas ideias, inteligente, além de ser uma belíssima mulher.

Passaram a ter, após algum tempo, encontros periódicos. Um relacionamento sério entre eles surgia. Ela, até então, via nele muitos predicados que, até aquele momento, fizeram-na pensar ser aquele o homem ideal para acompanhá-la no restante da sua jornada encarnada. Porém, não foi preciso mais do que sessenta dias para que aquele relacionamento começasse a ruir. Ele passou a revelar um lado seu que a desagradou e decepcionou.

Desmarcava encontros em cima da hora para ficar com amigos no botequim ou para jogar bola. Nos encontros, passou a tratá-la de forma ríspida. Certa noite, num encontro, onde ela resolveu “colocar tudo na mesa”, discutiram. Ele perdeu a cabeça e partiu para atitudes violentas, machucando-a bastante. Aquele foi o momento derradeiro entre ambos.

Na mesma noite, ao chegar à sua casa, percebeu que o elevador estava emperrado, tendo que subir alguns andares de escada. E não bastaram mais do que três lances para que começasse a se sentir mal, ficou tonto, caiu escada abaixo quebrando sua perna esquerda. Deitado, zonzo, gritou por socorro, que levou alguns minutos para chegar. E sua dor na perna só fazia aumentar. Enquanto aguardava pelo socorro, sentia corpo e cabeça pesados. Mas, como sua visão e audição espirituais eram completamente bloqueadas, não pode ouvir uma gargalhada sonora à sua volta, desde o momento em que agrediu a moça, até aquele, em que estava deitado, com a perna quebrada clamando por socorro.

No início deste conto, não dissemos que, ao chegar ao botequim, ele se apoiava em uma bengala, mancando. Tinha, após aquele tombo, ficado com um defeito na perna esquerda, que procurava tratar. Depois daquele episódio, não mais pode jogar bola com os amigos (seu maior hobby) e seu desempenho com as mulheres passou a ser nulo. Por isso, lá estava, desesperado, bebendo, buscando naquele ambiente uma resposta, uma solução para a sua vida.

Você deve estar questionando, a esta altura da leitura, por que intitulamos este como “Conto de Exu”, se nos detivemos apenas a fatos da vida de um homem comum, não é mesmo?  Ora, é nosso objetivo neste trabalho, mostrar o Sagrado Senhor Exu como um Orixá, um Poder Divino, um Estado da Criação. Volte aos três momentos e perceba o Divino Senhor Exu nas ações que se desencadearam a partir das atitudes do rapaz, nos sorrisos um tanto irônicos e na gargalhada sonora.

Mas, se ainda assim, você insiste em humanizar o que é Divino, então, vamos lá: ainda sentado naquele botequim, ele, que tinha visão e audição espirituais completamente bloqueadas, não percebeu uma força que se aproximava, mas que o faria tomar uma atitude que o levaria para outro caminho, a partir daquele momento. À sua volta, havia muitos espíritos obsessores, sofredores, sugadores de energia.

Aproximou-se da mesa “algo” muito superior a eles e a todos que ali se encontravam (tanto encarnados quanto desencarnados). Um ser masculino, de pele negra reluzente, orelhas pontiagudas, que poderiam ouvir a tudo e a todos ao mesmo tempo, mãos grandes e com dedos compridos que poderiam agarrar toda e qualquer coisa ou todas as pessoas ao mesmo tempo, pés grandes e com dedos também compridos que poderiam pisar em qualquer solo ou em nenhum, boca grande que poderia falar todas as palavras, dialetos e idiomas ao mesmo tempo e com quantas pessoas fosse necessário, olhos negros grandes que a tudo viam, nada escapava do seu raio de visão.

Quando se aproximou do rapaz, todos os espíritos que estavam à sua volta dali desapareceram como que num passe de mágica, tendo sido, muito provavelmente, encaminhados para seus lugares de merecimento ou enviados para o Vazio. Mentalmente, aquela força falou apenas uma frase: “Estou aqui para garantir que você não se perca novamente. Chega disso! Levante-se e siga, a partir de agora, o caminho correto.”

Ele, que nada percebia, pois tinha audição e visão espirituais fechadas, naquele instante, pediu a conta, pagou-a, levantou-se apoiado em sua bengala e foi ao encontro da velha senhora que havia socorrido.

Se você esperava aqui uma lenda do Sagrado Orixá Exu, saiba que, Negro Velho quis, através deste conto, mostrar que o Divino Exu é um Orixá, um Poder Divino realizador e que atua o tempo inteiro na vida de todos nós e em toda a Criação. É um poder manifestado de Deus. E como Poder Manifestado está à nossa volta o tempo todo.

Caminhe corretamente e tenha o Poder denominado por nós como Orixá Exu lhe guardando e direcionando. E saiba: se não caminhar corretamente, ainda assim, ele lhe direcionará.

 

Conto Ditado por Pai Thomé do Congo

Anotado por André Cozta

Rio de Janeiro- 25 de janeiro de 2013- 23:15h