Banto: Patrimônio Imaterial

Já está em tramitação o projeto de autoria do deputado estadual Átila Nunes que torna o idioma Banto patrimônio imaterial RJ.

O projeto recebeu a contribuição do Professor José Beniste, amigo de Átila Nunes, historiador e autor de livros sobre a cultura afro-brasileira, reconhecido como uma das maiores autoridades do nosso país em cultura afrobrasileira.

Os bantos se destacaram como um conjunto de povos africanos que se identificavam por afinidades, hábitos comuns a todos, em especial a sua forma de linguagem. Uma participação nacional em todas as regiões deixaram seus costumes enraizados, contribuindo de forma segura para a formação da cultura brasileira.

Foram estes bantos que mais forneceram escravos ao Brasil, assinalando de forma firme sua cultura, devido à diferença dos sudaneses, menos acessíveis aos processos de integração.

Os grupos bantos se constituíram em uma determinada época, no elemento dominante da população escrava. Foram os primeiros a aqui a chegar, sendo escravizados juntamente com os índios, com quem mantiveram boas relações.

As lembranças mais fortes dos grupos bantos foram marcadas pela linguagem, com inúmeras palavras já inseridas no falar brasileiro juntamente com os festejos folclóricos, como a capoeira, uma forma de luta acompanhada pelo som do berimbau e tambor.

O Rio de janeiro nasceu indígena e ganhou batismo português, mas sua base étnica foi composta pela negritude, fundamental para nossa formação cultural (Milton Guran, antropólogo)

Essa aproximação iria promover a adesão de mulatos, brancos, e caboclos adaptando-se às condições do novo ambiente. Devemos observar que essa boa relação dos bantos com os instrumentos de percussão se refletiu em gêneros musicais como o samba, a bossa nova, o coco, o maracatu e o pagode.

E mais: o samba de roda invadiu os terreiros em volta das casas da fazenda, mais tarde tomando o caminho das cidades, contribuindo para a formação das escolas de samba. Os cortejos do rei do Congo, criados para divertir, viriam se transformar nos afoxés e maracatu. Os ritmos da África deram uma forma à música brasileira e tomando conta das ruas.

Os bantos que aqui estavam encontraram no espiritismo pensamentos semelhantes sobre a teoria da manifestação de espíritos familiares (bakulu) e puderam assim, reintegrar seu antigo culto aos antepassados ao nível da mediunidade de seus senhores brancos.

Em sua crença, todos os filhos representam o retorno de algum antepassado. Foi esta abertura que fez com que, apesar de seu grande número, os bantos tivessem poucas formas religiosas, sendo verdadeiramente fiéis às suas origens étnicas. Mais tarde, as formas diferentes foram generalizadas com a denominação de Umbanda, palavra do idioma kimbundo, que significa – arte de curar, e por extensão, Kimbanda – aquele que cura.

Apesar da integração lingüística, os bantos procuraram preservar o idioma original através de reuniões religiosas, e atualmente, em Casas Tradicionais de Culto conhecido como Candomblé, derivado de Kandombide – arte de rezar, invocar. Seus descendentes, seguidores e admiradores, exaltam as divindades e o poder de Deus – Zambi, através de cânticos e rezas que revelam expressões em diferentes idiomas bantos.

Esse relato que fazemos, nos leva a entender que o idioma banto seja um tronco lingüístico, falado por mais de 400 grupos étnicos, variando entre o kimbundo, kikongo, bacongo, kioko, e com todos falando entre si.

Esse procedimento era contrario ao interesse dos senhores que os obrigavam a falar o nosso idioma, além de serem rebatizados com um novo nome em português. Perdiam o nome original (dijina), e ganhavam um nome da terra. Isto concorreu ao aportuguesamento de muitas palavras que mais tarde foram inseridas no falar diário.

As diferentes formas e palavras da linguagem dos povos bantos, que marcaram profundamente a nossa maneira de falar, têm os mesmos princípios fundamentais, compreendendo mais de 260 dialetos, muitos deles não possuindo caracteres gráficos.

De todos eles, o kimbundo, falado no antigo reino de Angola, foi o primeiro a tornar-se conhecido no Brasil. Não resta dúvida de que uma das conseqüências da colonização foi o enriquecimento do idioma. A nossa língua absorveu, assimilou milhares de palavras e expressões indígenas e africanas, que às vezes a gente usa sem perceber (Professor e escritor Milton Hatoum).

A riqueza da contribuição lingüística de origem banto já inserido em nosso vocabulário é maior e a mais rica entre todos os demais grupos africanos aqui chegados, o que nos leva crer, ser merecedor de reconhecimento como patrimônio imaterial da Cidade do Rio de Janeiro.

Relacionamos algumas palavras devidamente adaptadas do idioma original, e inseridas no vocabulário brasileiro: angu, arengueiro, babar, bagunceiro, bajular, balaio, bamba, banana, banguela, batucada, bengala, budun, bujinganga, bunda, cabaça, cabaço, caçamba, cacete, cacimba, caçula, cafuné, cambada, candomblé, candonga, canjica, caolho, capanga, capenga, capeta, caruru, catinga, chacota, cocada, cochichar, cochilo, cuia, cuscuz, dendê, dengoso, dengue, dondoca, encrenca, enfezado, engambelar, farinha, farofa, fubá, fuxico, fumo, fungar, fuzuê, gamela, gingar, goela, gogó, gulodice, guloso, inhame, ioiô, iaiá, jagunço, jiló, lambança, lengalenga, maconha, macumbeiro, mandinga, manjuba, maxixe, miçanga, mocotó, moleque, moringa, mulambo, mulata, mungunzá, munheca, murrinha, pamonha, pança, papo, pinga, pito, quebranto, quiabo, quindim, quitanda, quitute, resmungar, rixa, rusga, sabugo, samba, samba, senzala, sinhô, sorumbático, sova, surra, tabefe, tabu, tanga, tangerina, tapear, tara, tarimba, tigela, toca, topada, tripa, troco, trumbicada, tutu, urucubaca, vatapá, xereta, ximbica, xingar, xixi, xodó, zangada, zarolho, zeca, zunzum.

DECLARA PATRIMÔNIO IMATERIAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO O IDIOMA EM BANTO, PRATICADO NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS, NO ÂMBITO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

Autor: DEPUTADO ÁTILA NUNES

A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

RESOLVE:

Art. 1º Fica declarado como Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro o idioma em Banto, praticado nas religiões afro-brasileiras, âmbito do Estado do Rio de Janeiro.