Influenciadores do Axé: confira a entrevista com o Babalorixá Raimundo T’Aira

Série traz entrevistas com digital influencers da Umbanda e do Candomblé

Em seu canal no Youtube, o Babalorixá Raimundo T'Aira levanta discussões sobre temas pertinentes dentro do Candomblé. Foto: Reprodução da internet.

Até que ponto agregar o uso das novas tecnologias nos estudos teológicos é algo positivo? Será que essa enxurrada de informação trazida pela internet em algum momento pode ser prejudicial para o desenvolvimento do médium? Com o objetivo de trazer esta reflexão, através da série “Influenciadores do Axé”, o Notícias de Terreiro traz entrevistas com adeptos da religião que possuem canais ativos no Youtube e também estão presentes em outras mídias sociais.

De uma forma geral, a religiosidade afro-brasileira ainda é alvo de muito preconceito. Mas os cultos de matriz africana não são mal compreendidos somente por quem está de fora. No Candomblé, por exemplo, existem muitos temas que ainda são considerados tabus entre os adeptos. E foi com o objetivo de desmistificar a religião, tanto para leigos, quanto para praticantes, que o Babalorixá Raimundo T’Aira criou seu canal no Youtube, que possui audiência de 4,1 mil inscritos. Ativo na plataforma desde 2017, o sacerdote de 55 anos traz à tona discussões necessárias como a importância de incentivar a boa conduta do filho de santo não só no âmbito da casa de axé.

O candomblecista também coloca os ‘pingos nos is’ no livro “Unbuntu”, onde fala de intolerância religiosa e mostra a ritualística que envolve a religião, incluindo o tão criticado sacrifício animal. Confira a entrevista.

Há quanto tempo o senhor  é adepto do Candomblé? E por que o escolheu como religião?

Há mais de 42 anos sou adepto das religiões afro. Na Umbanda, para ser mais específico. Antes, mesmo com sabendo que a maioria dos brasileiros são católicos, a busca pelo saber do desconhecido me chamou. Comecei na Umbanda, onde me tornei Babalorixá, mas sempre estudando e pesquisando sobre o Candomblé. Quando ainda jovem, decidi conhecer a religião. Na época eu tinha muitas dúvidas e informações equivocadas sobre o culto. Isso dificultou minha aceitação ao Candomblé, principalmente, por conta de rituais como a “matança”. Então continuei na Umbanda… até que um dia o chamado foi maior que a ignorância. E depois de iniciado, aprofundei os estudos. Hoje tenho a convicção de que o Candomblé estava em mim há muito tempo, mesmo antes de eu nascer.

Há quantos anos o senhor está a frente do Egbé Asé Airá Intile? Qual nação é cultuada na casa?

Fundei o Egbé Asé Aira Intile em 2007.  Fui iniciado na nação Djede Mahi. Entretanto, abri minha casa tomando Asé (troca de águas) para o Ketu, onde continuo e pretendo continuar.

Assista ao vídeo mais recente do Babalorixá:

O que motivou o senhor a criar um canal no Youtube para falar sobre o Candomblé?  Foi muito incentivado?

Depois de um debate em uma faculdade na minha cidade (Rio Bonito /RJ) sobre intolerância religiosa, percebi o quão a nossa religião é mal interpretada e me recordei, quando jovem, a imagem que tinha do Candomblé por não ter a informação de quem de fato conhece a religião. O grande motivo foi informar, e também, a falta de interesse de nós candomblecistas em nos preocuparmos com o comportamento religioso e social de nossos filhos. Com isso, não informamos e  não incentivamos o respeito mútuo. Acho desgastante exigir respeito quando nós mesmos não nos respeitamos. Não houve incentivo algum, mas sim persistência, e os temas pertinentes vêm atraindo muitos assinantes.

O senhor acredita que mesmo com a rigidez do Candomblé, o uso da internet para a troca de conhecimento poderá ajudar a quebrar certos tabus que ainda existem dentro da religião?

Sim, acredito. Faço uso dessa ferramenta, mas lógico que tudo tem que ter sensatez e responsabilidade. A internet pode auxiliar e muito. Principalmente em quebrar o preconceito e fomentar, até mesmo, quebras de tabus criados em uma outra época. Hoje o Candomblé precisa ser educativo, e não imperativo.

Qual é a opinião do senhor em relação aos adeptos do Candomblé que não vêem com bons olhos o uso da internet para disseminar a religião e compartilhar o conhecimento?

Se tratarmos o conhecimento como rituais, não acredito ser a internet o melhor lugar, pois, Asé se aprende em casa, mas se tratarmos em comportamento religioso, informar cantigas, história, os porquês, acredito ser um excelente local para discutirmos assuntos que, tragam luz, que esclareçam. Afinal, quem muito se explica, se complica.

Como o senhor define a experiência de poder compartilhar seu conhecimento e expor sua opinião sobre determinados temas comuns ao Candomblé através de seu canal  no youtube?

Eu me defino como alguém que quer conversar sobre o Candomblé, que pretende desmistificar, tirar o Candomblé do lugar de religião de superstições e estimular o estudo. E meus vídeos têm a intenção de promover uma evolução social, de não apenas nos preocuparmos com rituais. Isso aprendemos em casa. Devemos evoluir como pessoas, buscar educação, um comportamento coerente entre as pessoas de Asé.

Veja o que o Pai de Santo fala sobre kelê e preceito:

O senhor sempre quis lançar um livro que falasse sobre a intolerância religiosa?

Sim, o livro é uma realização de anos. Sempre me incomodou a falta de conhecimento de quem critica o Candomblé.

De que maneira UBUNTU mostra o que de fato é o Candomblé?

Trago no livro UBUNTU uma linguagem de fácil entendimento, descrevo uma saída de Yawo, desmistifico o folclore e as superstições que acarretam o ritual. Mostro cantigas e traduções, tento explicar o significado da matança que é um dos rituais mais criticados. Dessa forma, tento mostrar que o demônio não é uma entidade que nos pertence.

Em tempos de intolerância, quando a sociedade se mostra cada vez mais agressiva, qual é a expectativa do senhor em relação à influência de seu canal no Youtube e o lançamento de UBUNTU?

Gostaria muito que as pessoas entendessem que a verdade tem várias faces. Que o Candomblé é uma religião e, por isso, tem que ser respeitada. Espero que entendam os nossos rituais. Sem o véu do preconceito, consigam enxergar e respeitar nossa história, nossa tradição, nossa cultura.

E para finalizar, considerando a naturalidade com que as novas gerações lidam com a internet, o que o senhor espera para o futuro do Candomblé?

Já sinto, mesmo que discretamente, uma geração preocupada em resgatar o Candomblé raiz. O Candomblé tradicional. E vejo a preocupação de alguns em defender esse Candomblé. E como costumo dizer, o Candomblé, na sua perfeição, oferece o que se procura. Se procuram casas de Asé, irão encontrar. Se procuram um candomblé folclórico, um candomblé adaptável ao o que as pessoas querem, também irão encontrar. Entretanto, o Candomblé para Òrisá continuará vivo e resistindo.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.