Influenciadores do Axé: uma reflexão sobre o mundo digital na religiosidade

NDT lança série de entrevistas com 'influencers digitais' de Umbanda e de Candomblé

A série "Influenciadores do Axé" traz líderes de Umbanda e Candomblé presentes no mundo digital. Foto: Reprodução da Internet.

Apesar de ser mais um entre tantos avanços tecnológicos alcançados pelos seres encarnados, a internet é uma ferramenta que segue causando uma verdadeira revolução em diversos campos da vida cotidiana, inclusive o religioso. Em tempos onde a informação está literalmente na palma da mão, ficou ainda mais fácil ter acesso à fontes de estudos que ajudam os praticantes de religiões espiritualistas de matriz africana a entenderem melhor a liturgia na qual estão inseridos, desde que as fontes sejam seguras. Entretanto, alguns adeptos não veem com bons olhos o uso da tecnologia para esta finalidade.

Ainda que a humanidade tenha alcançado grandes feitos no ramo da tecnologia, já se sabe que, neste aspecto, a espiritualidade se encontra muito à frente do plano físico, fato que, inclusive, é narrado pelo espírito André Luiz no livro “Nosso Lar”, por intermédio de Chico Xavier. Por mais que haja resistência vinda de fiéis mais conservadores, o meio digital tem sido de grande serventia para disseminação de religiões como a Umbanda e o Candomblé, e tem ajudado a atrair simpatizantes abertos a entender toda a ritualística que envolve estas crenças.

Após a popularização deste universo online e a facilidade de produzir conteúdo, aos poucos os influenciadores foram surgindo e conquistando suas audiências no Youtube, e no meio de tanta diversidade de nichos, a religiosidade afro-brasileira também ganhou voz. Entre tantos temas e discussões trazidos à tona por quem tem propriedade para falar sobre o assunto, a plataforma possibilita que a troca de conhecimento aconteça de uma forma mais interativa. Mas, até que ponto agregar o uso das novas tecnologias nos estudos teológicos é algo positivo? Será que essa enxurrada de informação trazida pela internet em algum momento pode ser prejudicial para o desenvolvimento do médium?

Com o objetivo de trazer esta reflexão, o Notícias de Terreiro dá início à série “Influenciadores do Axé”. Serão feitas entrevistas com adeptos da religião que possuem canais ativos no Youtube. A primeira delas é com Adérito Simões, dirigente espiritual do Templo 7 Montanhas do Brasil, localizado na cidade de Praia Grande, na Baixada Santista. Desde 2014, o umbandista de 38 anos compartilha seus conhecimentos através de vídeos curtos e concisos em seu canal no Youtube, que pode ser acessado neste link https://bit.ly/2ME0JIe. A seguir, o sacerdote conta de onde veio a influência para adotar a Umbanda como religião, e o que o motivou a levar informação para o grande público, já que o seu canal possui atualmente 171 mil inscritos e sua fanpage, por exemplo, mais de 23 mil curtidas. Só de visualizações, cada vídeo concentra em média, quase 500 mil views. Confira.

Há quanto tempo você é adepto da Umbanda? Quando ocorreu seu primeiro contato com a religião?

No mês de junho de 2007.

De onde vem a influência para que você tenha adotado a Umbanda como religião?

De uma amiga de minha esposa, Bruna. Ela nos convidou para ir no terreiro dela.

Por quantas casas você já passou antes de se tornar sacerdote?

Duas.

Nos locais por onde você passou, sempre foi incentivado pelos dirigentes a buscar conhecimento mediúnico?

Na primeira, não. Era proibido procurar fora. Na segunda, tínhamos grupo de estudo regular.

O que te motivou a criar um canal no Youtube dedicado ao estudo da Umbanda?

Sempre quis abrir um canal no Youtube, mas não tinha assunto. Uni o útil à missão de vida. Também havia a desconfiança de minhas capacidades ou conhecimento sobre Umbanda no início do terreiro. Em uma tentativa de expor esses conhecimentos abri o canal. Obviamente, antes de tudo, a permissão das entidades e minha missão nesta vida como orador e porta-voz dos grupos e locais por onde passei. Sempre gostei de falar, dar aulas, de expor conhecimento. Fiz Direito, sou advogado, fui orador nas formaturas das turmas do colégio, orador na turma de sacerdócio, meu irmão é professor, minha mãe ministrava aula de violão clássico no conservatório, sou empresário. Falar sempre foi natural e uma profissão na minha vida.

Você sempre foi um médium estudioso?

Observador é a palavra correta. Eu sempre pratiquei e li sobre ocultismo. Nada mudou com a Umbanda.

Você acha que as novas tecnologias podem contribuir para o surgimento de um novo tipo de médium dentro da Umbanda entre as novas gerações?

Tomara que não. Não precisamos de novos tipos de médiuns.

De que forma esta ferramenta se torna um benefício e de que forma pode ser prejudicial para o desenvolvimento do médium?

Benefício: distribuição de conhecimento e união de pessoas com diversas formas de enxergar a Umbanda.

Prejudicial: há meios de se tornar muito visto e, assim, tornar sua forma de praticar Umbanda como a verdadeira e única. Propaganda e luta por inscritos e visualizações coloca a espiritualidade em segundo plano.

Assista a um dos vídeos do umbandista abaixo:

A manutenção do canal gera muitos custos?

Nenhum de ordem financeira. Pelo contrário, recebo para isso do AdSense, o sistema de monetização do youtube. O custo é de tempo e trabalho. Tempo para gravar, tempo para responder perguntas.

Administrar o canal é uma tarefa muito trabalhosa?

Tenho uma equipe que cuida das perguntas. Eu gravo, faço as capas, subo e administro as datas de publicação dos vídeos.

Você sofre algum tipo de preconceito de adeptos mais conservadores da Umbanda por ter criado uma plataforma digital e ter monetizado este trabalho?

Não dos conservadores. Meu pai de Santo é conservador e também tem. Quem não gosta da cobrança de valores é adepto de Umbanda Espírita e Umbanda Cristã, o que é estranho porque cobram a venda de livros, que é monetizar por via diversa.

O quanto este trabalho também contribui para o seu próprio aprendizado como médium?

Mais se aprende ensinando. Se não sabe transmitir o que aprendeu, não aprendeu corretamente.

O quanto você acredita que este trabalho pode contribuir para a desmistificação do preconceito às religiões de matriz africana?

Não sei. Desculpe. Só me preocupo em continuar observando as manifestações, lendo os livros e gravando. Não acompanho mais os impactos externos à isso. Desculpe, realmente, desejo somente fazer meu trabalho, que ainda está longe de terminar.

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Você já sofreu ataques motivados pela intolerância religiosa por conta de sua atuação na internet através de seu canal e das redes sociais? Se sim, como você lidou com isso?

Se for haters, não tenho contato. Uma equipe responde às perguntas e me envia as que eu devo responder. Se for invasão de site, nunca recebi. Terceirizei o serviço de hospedagem e cobrança. Eu só estudo, gravo e subo, seja no youtube, na plataforma ou qualquer outro lugar. Por fim, acho que não faço nada nem a favor ou contra ataques.

E para finalizar, como você define a experiência de poder levar para outras pessoas a informação e o esclarecimento sobre o que de fato é a Umbanda?

Não me vejo nessa posição de esclarecer sobre o que de fato é Umbanda, só falo sobre minha Umbanda e o que entendo e experimentei das demais, e não o que é a Umbanda de fato. É só a Umbanda que eu conheço. Como eu disse acima, e peço desculpas novamente, eu só gravo e subo. Meu trabalho principal são as giras de atendimento e o cuidado com os filhos de santo. Se há sucesso em outros setores, seja financeiro ou de alcance, não é fruto do meu esforço, porque não há esforço mais para que isso ocorra. Eu sento de frente para uma câmera sozinho em meu quarto e falo.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.