As Umbandas dentro da Umbanda: conheça algumas vertentes da religião

Foto: Divulgação/Henrique Esteves

Com o passar do tempo, naturalmente as coisas mudam. É assim em diversos contextos. Entre eles, o religioso. E na Umbanda não foi diferente, já que com o avançar dos anos, sua capacidade de agregar fundamentos vindos de outras religiões deu origem a variadas vertentes. Porém, independente das particularidades delas, o propósito continua sendo um só desde a sua fundação, em 1908: a manifestação do espírito para a caridade.

Anunciada há quase 110 anos pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, através de seu médium Zélio Fernandino de Moraes, aos poucos a “Umbanda original” serviu como base para outros segmentos. Enquanto uns estão mais ligados à doutrina kardecista, outros sofrem maior influência de cultos africanos, mas será que existe um jeito certo ou um jeito errado de cultuar a religião? Para chegar a uma possível resposta para essa pergunta, nada melhor do que tentar entender como se configuram algumas vertentes. Veja a seguir as características de várias e conheça um pouco das Umbandas dentro da Umbanda.

Umbanda Branca

Sob as orientações do Caboclo das Sete Encruzilhadas, através de seu “cavalo” Zélio Fernandino, representa o marco inicial da religião, e é também conhecida como Umbanda Tradicional, Umbanda de Mesa Branca ou Linha Branca de Umbanda. Neste segmento, os Orixás estão fortemente associados à figura de santos católicos e não há um vínculo com as características atribuídas pelos cultos africanos às divindades. Aqui se considera a existência de nove linhas de trabalho: Oxalá, Iemanjá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã e Almas.

O trabalho é desenvolvido por guias como Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças, e não há sessão para Boiadeiros, Ciganos, Malandros, Exus e Pombagiras. Não há variação nas vestimentas, onde se utiliza somente o branco. Faz-se o uso de instrumentos como fios de contas, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e ponto riscado. Por não sofrer uma forte influência dos cultos africanos, este segmento é isento do uso de atabaques.

Umbanda Kardecista

Possui forte influencia da doutrina de Kardek, e também é conhecida como Umbanda de Mesa Branca e está diretamente ligada ao espiritismo, pois sua origem se deu nos centros espíritas. Com a fundação da Umbanda, estes espaços passaram a agregar o culto junto com as sessões “mesa branca”. Neste segmento, os Orixás não são cultuados, não há agrupamento de entidades por linhas de trabalho e os trabalhos mais voltados para a Umbanda são realizados por Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças. E ainda, não há sincretismo com santos católicos. Aqui também utiliza-se a roupa branca como única vestimenta e também são manuseados instrumentos como guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques.

 Umbanda Mirim

Desenvolvida pelo Caboclo Mirim, esta vertente também pode ser chamada de Aumbandã, Umbanda Branca, Umbanda de Mesa Branca ou Umbanda de Cáritas. Através do médium Banjamim Gonçalves Figueiredo, a entidade  deu origem à ritualística desenvolvida sob suas orientações no Rio de Janeiro em 1924, onde nasce a Tenda Espírita Mirim. Hoje o templo conta com 12 filiais, onde 11 delas ficam localizadas em diferentes pontos do estado do Rio de Janeiro e uma na Califórnia, nos Estados Unidos.

Neste segmento, não são cultuados santos católicos e a figura dos Orixás não possui vínculo com os tradicionais cultos africanos. É considerada a existência de nove Orixás que incluem: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.  Já as linhas de trabalho são divididas em sete, sendo elas: Oxalá, Iemanjá (que engloba Oxum Iansã e Nanã), Ogum, Oxóssi, Xangô, Oriente (onde estão inseridas entidades orientais) e Yofá (onde encontram-se os Preto-Velhos e as Preta-Velhas).

Os trabalhos são realizados por entidades do arquétipo dos Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças, e não se recorre a atuação de Exus e Pombagiras. Nesta vertente, acredita-se que os espíritos que trabalham no pólo negativo são pertencentes à Quimbanda e não à Umbanda.

Não há variação nas cores das vestimentas, sendo o branco a única a ser utilizada. Utulizam-se como instrumentos de trabalho fumo e defumadores, entretanto, itens como velas, bebidas atabaques e imagens de santos católicos não são utilizadas, exceto a imagem de Jesus Cristo. Além disso, para classificar o grau dos médiuns dentro da hierarquia, são usados termos de origem Tupi.

Umbanda Sagrada

Através do médium Rubens Saraceni, foi fundamentada por Pai Benedito de Aruanda e por Ogum Sete Espadas da Lei da Vida, surgiu na cidade de São Paulo, em 1996. Esta doutrina caracteriza-se por se colocar como independente das doutrinas africanistas, espíritas, católicas e esotéricas ao considerar que a Umbanda possui sua própria fundamentação independente das tradições vindas destes cultos, mas não deixa de reconhecer suas influências.

Nesta vertente cultuam-se os santos católicos havendo uma relação com os Orixás, o que caracteriza o sincretismo religioso. Considera-se que existem 14 Orixás agrupados como casais em sete tronos divinos, onde a divisão é feita entre Oxalá e Logunan ; Oxum e Oxumaré; Oxóssi e Obá; Xangô e Iansã; Ogum e Egunitá; Obaluaê e Nanã, além de Iemanjá e Omulu. Os sete primeiros de cada um dos pares são chamados de Orixás universais, que são responsáveis por sustentar as ações retas e harmônicas, já os sete restantes são conhecidos como Orixás Cósmicos. Estes últimos são responsáveis pela atuação corretiva sobre as ações desarmônicas e invertidas, considera-se que alguns deles são manifestações  dos mesmos Orixás nas tradições africanas.

Umbanda Omolokô

Fundamentada por Tata Tancredo, no Rio de Janeiro, na década de 1950,  essa vertente surgiu por influência do culto Omolokô, religião africana, com ritualística que possui algumas similaridades com o Candomblé. Acredita-se que este culto é originário do Sul de Angola. Em comparação a outras vertentes da Umbanda, esta apresenta características que possuem maior proximidade com os cultos africanos.

Neste segmento o sincretismo é bastante acentuado, por isso, é bastante comum o uso de imagens que representam os santos católicos. É considerada a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.  As linhas de trabalho são divididas de acordo com o arquétipo das entidades (linha de Caboclos, linha de Pretos-Velhos, Linha de Crianças, Linha de Ciganos, Exus, entre outras). Os trabalhos podem ser desempenhados por diversas entidades e não se limitam apenas à tríade principal (Pretos-Velhos, Caboclos e Crianças).

Aqui a roupa branca também é adotada como principal vestimenta, porém, outras cores podem ser utilizadas de acordo com a linha de trabalho. Além disso, também são utilizados complementos como cocares, capas, cartolas, entre outros e instrumentos como espada, machado, arco, lança, etc. Também são utilizadas guias, imagens, fumo, defumadores, velas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques. Assim como no Omolokô são realizadas cerimônias de iniciação e avanço de grau na hierarquia, e também se recorre ao sacrifício animal, geralmente para as entidades que trabalham na esquerda (Exus e Pombagiras).

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.