Átila Nunes: “neopentecostais tentam descaracterizar a tradicional roda de capoeira”

Evangélicos praticam capoeira com pregação de cultos e exclusão de menções à cultura negra

Deputado critica "apropriação cultural" da capoeira feita por evangélicos. Foto: Divulgação

Quem se deixa levar pelo preconceito, se torna incapaz de perceber o quão devastadores podem ser os efeitos gerados pela intolerância religiosa. Mais do que isso, essa atitude pode dar origem a verdadeiros absurdos. O mais recente deles é a capoeira gospel, uma “inacreditável tentativa de descaracterização da capoeira” através da inserção de versos em louvor a Jesus, em substituição aos tradicionais cânticos que enaltecem os Orixás, como classifica o deputado estadual Átila Nunes, na fanpage do seu tradicional programa Melodias de Terreiro.

Durante a prática da atividade, a roda é alternada com momentos de pregação como mostram diversos vídeos que circulam nas redes sociais e que se tornaram até tema de uma matéria especial da BBC Brasil, no ano passado. A proposta dos neopetencostais é dar uma nova roupagem para a capoeira como ferramenta de evangelização.  As músicas, que só falam do evangelho e citações bíblicas, representam uma distorção dos moldes tradicionais desta manifestação cultural de origem histórica, segundo Átila Nunes.

“É uma apropriação cultural e tentativa de se apagar a raiz afro-brasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18”, afirma ele em sua página oficial do programa Melodias de Terreiro.

Em 2014, a Unesco declarou a roda de capoeira como patrimônio imaterial da humanidade. A prática também é tombada pelo IPHAN como patrimônio cultural do Brasil, desde 2008. Para Átila Nunes, as chamadas rodas de capoeira gospel “promovem discursos de demonização contra a capoeira tradicional e cultos de matriz africana como a Umbanda e o Candomblé”.

Roda de Capoeira teria traços evangélicos. Foto: Reprodução/Facebook

Uma das entidades representantes da prática cultural no Brasil, a Rede Nacional de Ação pela Capoeira, uma  criou um abaixo-assinado,no Change.OGG, para cobrar uma atitude da presidente do Iphan, Katia Bogea. O documento solicita à presidência do órgão, atitudes como atenção à propriedade intelectual da comunidade da capoeira, afetada pelo uso indevido e pela apropriação inédita do nome “capoeira” e pede por providências imediatas através de medidas extrajudiciais ou judiciais que se fizerem necessárias para resguardar o nome. Segundo o grupo, a denominação designa uma “expressão do conhecimento tradicional protegida pelo estado brasileiro”. Trata-se, conforme o texto, de algo assegurado pelo Registro “como patrimônio cultural, nos termos do Decreto n. 3551/2000, e que não pode ser aplicada a outras práticas que deturpem seus fundamentos”.

“Por tudo isso, é impossível afirmar que existe a capoeira gospel uma prática que agride a verdadeira capoeira. É uma prática neopentecostal que rejeita a única e inquestionável capoeira existente, a que é reconhecida como patrimônio cultural do Brasil e da Humanidade, finaliza o programa Melodias de Terreiro em nota publicada em sua página oficial”, conclui Átila Nunes em sua postagem.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.