A trajetória de uma Guerreira Espiritual

Jornalista reúne em livro relatos da Pombagira Morgana da Figueira do Inferno

Uma Pombagira um tanto quanto peculiar e um espírito de luz que tem muito a ensinar através de uma linda e emocionante história que é contada no livro “ Morgana da Figueira do Inferno”. Através da obra escrita pela jornalista Roberta de Souza, de 36 anos, a entidade que trabalha através da médium Cristina Lima divide com o leitor sua longa trajetória entre as trevas e a luz, até se tornar uma guerreira espiritual.  Lançado em 2015 pela Editora Muraquitã, todo o dinheiro gerado através das vendas é revertido para a Tenda Espírita Caboclo Mata Virgem, localizada em Itaipu, na Região Oceânica de Niterói. Com 16 anos de carreira, algumas obras já lançadas e outras duas em andamento, a autora conta como se deu todo o processo de produção da obra. 

Em que área do Jornalismo você atua?

Sou jornalista há 8 anos. já passei por várias editoras. Entre elas a Muraquitã, onde fiquei por 10 anos. Há 3 anos abri uma empresa de Assessoria de Comunicação.

Essa é sua primeira obra literária com foco na espiritualidade?

É sim. Sempre gostei de escrever, tenho outros trabalhos já publicados. Entre eles, o “Meninas de Trinta – A louca vida (nem tão diferente) de mulheres balzaquianas do século XXI”, que foi lançado em 2013. O nome é em referência às Balzaquianas de Honoré de Balzac. Nele, eu faço um contraponto entre as mulheres de 30 do século XXI e as mulheres de 30 da época em que a obra dele foi lançada. Já está em fase de avaliação das editoras o “Meninas de Trinta II – Todo homem é um príncipe até a página 20”. Nele, o foco é sobre os homens das mulheres de 30 do século XXI.

Você é adepta de algum culto de matriz africana? Se sim, de qual é praticante e há quanto tempo faz parte?

Sim, sou umbandista há 16 anos, e há 9 faço parte do Tenda Espírita Caboclo Mata Virgem, que é dirigido pelo pai Adevir correia dos Santos. É lá que Figueira trabalha.

 

Qual é a sua relação com a médium Cristina Lima e quando surgiu a ideia de escrever uma obra contando a história de Morgana da Figueira?

Ela é mãe pequena da casa, esposa do pai de Santo e minha irmã de criação. Conheço ela desde os meus 11 anos de idade. Quando eu entrei lá no terreiro e ela (Figueira) sabendo de meu desejo de escrever, falou que eu iria ser a escritora dela. Quando eu estava desempregada ela disse: “Senhora, vou lhe contratar”. Topei a proposta dela, e ela disse que depois eu poderia seguir o meu caminho.  Depois do livro, ela me deu um caminho onde surgiu a oportunidade de abrir minha empresa que, graças a Deus, tem dado tudo muito certo.

Quanto tempo demorou até que a obra ficasse totalmente pronta? O processo criativo foi muito trabalhoso?

Somando todo o trabalho, desde o processo criativo, até o lançamento, demorou mais ou menos um ano. Não foi uma tarefa muito fácil, tivemos algumas interferências (espirituais) por conta de certos assuntos que eram abordados. São coisas naturais ao que nós estávamos fazendo. Todos os irmãos do terreiro contribuíram financeiramente para que o projeto pudesse se tornar possível. Todo o dinheiro das vendas é revertido para o Centro.

Foi criada uma rotina para que os encontros pudessem acontecer? Em algum momento, houve dificuldade para que os encontros ocorressem?

Ao longo de seis meses, tivemos encontros no terreiro que rendiam, mais ou menos, quatro horas de conversa. Ela me explicava e me ensinava muita coisa, enquanto contava a história dela. Eu gravava essas conversas e depois ia pra casa para ouvir e passar para o papel. Assim a história foi começando a tomar forma.

Que tipos de acontecimentos Maria Figueira narra em seus relatos ?

Ela começa contando sobre sua última encarnação, que foi no século XII. Em vida, ela tinha como missão espiritual ajudar as pessoas através dos dons que possuía. Era sua missão espiritual. Por conta de seu dom, na época, seu desencarne foi na fogueira, junto com sua família. Após seu desencarne, inicialmente ela não aceitou a ajuda da luz, pois queria encontrar seus familiares. Depois de muito tempo (cerca de 200 anos), ela resolveu aceitar ajuda do plano superior e seguir o caminho que ela deveria ter seguido.

Você contou com a colaboração de outros escritores?

No plano espiritual sim, no físico, não. Do plano espiritual, tive o auxílio de alguns escritores que me ajudaram a organizar a fluidez da história. Muitas dúvidas que eu tinha foram sanadas com a ajuda do plano espiritual e também da própria dona Figueira. A capa, a foto que tem na parte de trás do livro, tudo foi escolhido por ela. Foi feito um ensaio com a médium incorporada, ela que escolheu as fotos.

Quais são os traços mais marcantes da personalidade de Morgana Figueira?

A Figueira é uma Pombagira muito peculiar. Eu diria que ela é um pouco diferente do padrão que caracteriza o arquétipo. Nem sempre ela utiliza roupas escuras, ela inclusive trabalha muito próxima do povo cigano. Ela realmente não é uma Pombagira como as que estamos acostumados a ver. Ela é uma Pombagira batizada por Iansã e que responde a Oxum, Orixá que rege a coroa da médium.

O que mais te chamou atenção na trajetória de Morgana da Figueira?

Uma coisa que não vou esquecer nunca foi como ela se sentia culpada com o que aconteceu com a família dela, por conta de suas escolhas. Eu senti a emoção vindo da entidade. Eu pude sentir que falar sobre isso era muito emocionante para ela.

Você considera esta experiência como uma oportunidade de aprendizado?

Aprendi muito sobre a espiritualidade dentro da Umbanda, passei a entender que a espiritualidade é muito maior e não tão complexa como a gente acha que é. Eu vi que o espiritual é uma coisa absurdamente enorme. Por mais que a gente estude e pesquise, nunca vamos conseguir ter noção da grandeza espiritual.

Você pretende desenvolver outros trabalhos com base na trajetória de espíritos trabalhadores?

Na verdade, ficou muita história pra gente contar. Se eu colocasse no papel tudo que eu conversei com ela, ficaria um livro absurdamente grande. A nossa preocupação foi fazer um livro leve, para que não ficasse cansativo. Por ela, teriam outros livros, ela tem muita história pra contar e me ensinou muita coisa. O Zé Pelintra, que é o Exu que responde pela casa, também renderia ótimas histórias. É um espírito que, com certeza, tem muito a nos ensinar.

Que mensagem você e Dona Figueira pretendem passar através desta obra?

Nós não queremos dizer que a nossa verdade é absoluta. Nós queremos dizer que o bem faz sim parte da Umbanda e que Exu não é o diabo. A nossa intenção é desmistificar essa visão negativa em torno de Exu e também mostrar a história linda que ela (Figueira) construiu.

De que maneira as pessoas podem adquirir o livro?

O livro pode ser adquirido no centro do qual eu faço parte e onde Figueira trabalha, através do site da editora, pela página do livro no facebook, ou diretamente comigo. O livro custa R$ 30,00.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.