Terreiro de Candomblé em Nova Iguaçu sofre ataque de vândalos

O local invadido por criminosos foi depredado e incendiado

Deputado estadual Átila Nunes esteve no local. Foto: Divulgação/Henrique Esteves

Se por um lado não há limites para a fé e o amor pelo sagrado, por outro, o preconceito e a intolerância religiosa também parecem não ter. Na madrugada desta terça-feira (8), o Centro Espírita Caboclo Pena Branca, em Nova Iguaçu, foi alvo da ação de vândalos que invadiram o local e quebraram tudo o que havia no espaço e, em seguida, atearam fogo nos objetos. A casa de Candomblé fica em Cabuçu, distrito do município, na Baixada Fluminense, e há 15 anos é comandada pelo Babalorixá Sergio Murilo Malafaia, o pai Sergio D’Ogum.

Ao chegar no local junto com alguns de seus filhos de santo, o sacerdote se deparou com um cenário de completa destruição, onde todos os objetos de cunho ritualístico estavam quebrados e o espaço completamente prejudicado pelas chamas.

“Só viram a hora que já estava tudo pegando fogo, as labaredas estavam altas. Logo em seguida, chamaram o corpo de bombeiros e, graças a Deus, conseguiram controlar as chamas”, conta o Babalorixá.

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Apesar de os vizinhos que moram nas proximidades do ilê terem notado que o local estava em chamas, nenhum dos criminosos foi visto invadindo ou fugindo do terreiro. Além de destruírem todos os objetos ritualísticos no local, os vândalos fizeram pichações, deixando mensagens com um tom ameaçador, em uma delas estava escrito “ Não queremos macumba aqui.”

“A essa altura, nenhum dos malfeitores estavam mais lá, ninguém que mora nas redondezas viu nada, em pouco tempo eles quebraram tudo depois atearam fogo nas coisas, o estrago foi grande, muita coisa foi queimada”, relata

Logo após chegar ao local e tomar conhecimento do que tinha acontecido, pai Sergio tomou as medidas necessárias e fez registro na 56ª DP, localizada em Comendador Soares, também em Nova Iguaçu. O candomblecista relata que recebeu das autoridades todo o apoio que necessitava no momento.

“Na delegacia fui muito bem atendido, recebi apoio das três forças, tanto da Polícia Civil, da PM e do Corpo de Bombeiros”, destaca.

Além da assistência prestada pelas autoridades, pai Sergio recebeu o apoio de diversos representantes de movimentos que lutam incansavelmente contra intolerância religiosa. Entre eles, o deputado estadual Átila Nunes, que esteve presente ontem no local e acredita que, com mais este caso de intolerância, é possível que, finalmente, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos contra a intolerância saia do papel.

“O episódio de Nova Iguaçu criou o clima para criar a Decradi, já que é um caso inquestionável de intolerância religiosa. As pichações e o ódio mostram claramente isso”, disse o deputado ao Jornal Extra, na ocasião.

Também prestaram solidariedade ao dirigente importantes figuras como o Babalaô Ivanir dos Santos e o Ogan Jaçanã, entre outros ativistas da causa.

“Estou sendo auxiliado pelos Direitos Humanos. O deputado Átila inclusive foi enviado pela Alerj como representante. As autoridades já estão analisando qual é o melhor caminho a ser seguido”, completa.  

Apesar de todo o ódio expresso pelo ato cometido pelos criminosos e do tom ameaçador da ação, pai Sergio  pretende reerguer o Ilê no mesmo endereço em que funciona há 10 anos.

“Eu não sei nem por onde começar, está tudo queimado. Mas não sou eu que tenho que me mudar do local, eu não posso me acovardar. As coisas é que precisam mudar”, defende.

Hoje, a casa comandada pelo sacerdote conta com um corpo mediúnico de 30 médiuns. Entre eles, Márcio Oliveira dos Santos, de 38 anos, e Jéssica Flores Coutinho, de 25. Os dois compareceram ao local assim que ficaram sabendo do ocorrido. Foi Márcio, inclusive, quem deu a notícia ao Pai Sergio. Conhecido como Márcio de Bará, o Ogan, que há 10 anos faz parte da casa, mora próximo ao terreiro.

“Estou auxiliando meu pai em tudo, sempre estivemos juntos, como pai e filho, não só como Babalorixá. Ele é uma pessoa muito importante na nossa vida, sempre apoiamos um ao outro. Foi o meu alicerce para que eu me tornasse o que eu sou hoje. Sempre estivemos juntos”, considera.

Em meio a tanta destruição gerada pela intolerância, Jéssica ficou bastante abalada com a situação, e junto com Márcio, segue dando apoio incondicional ao Babalorixá. A Yawô não conseguiu conter as lágrimas ao chegar no terreiro do qual faz parte há 9 anos.

“No momento que cheguei e vi tudo aquilo, eu fiquei muito triste, eu desabei na hora. É impossível ver o que a gente ama, o que é a nossa vida, e conseguir se conter, foi muito trágico pra mim. A gente sempre vê acontecer na casa dos outros e nunca pensamos que vai acontecer com a gente, e aconteceu”, lamenta.

Ainda abalado com o ocorrido, pai Sergio acredita que o que mais motiva atos de intolerância é a falta de amor no coração das pessoas, assim como a falta de respeito à diversidade, cada vez mais crescente nos últimos tempos.

“Eu acho que  o que está faltando é fé e amor ao próximo independente de segmento religioso, opção sexual, cor, eu acho que cada um tem sua opção, cada um tem seu modo de viver e não há ninguém certo e nem ninguém errado”, finaliza.

Para que o Centro Espírita Caboclo Pena Branca seja reconstruído, pai Sergio deu início a uma campanha de arrecadação em que qualquer valor pode ser doado em prol da causa. Interessados em efetuar doações devem realizar depósito na conta poupança 1002492-7, agência 1315 – Bradesco, em nome de Sérgio Murilo Malafaia de Souza.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.