Pelas mãos de Mãe Olga de Alaketu, Nanã e Xangô

Seriedade, disciplina, muito amor e respeito pelos Orixás, é o que resgata Luana Lázaro, iniciada pela sacerdotisa em tradicional Ilê de Salvador

Mãe Olga de Alaketu foi figura icônica em tradicional Ilê de Candomblé de Salvador. Foto: Reprodução da Internet

Seriedade, disciplina e muito amor e respeito pelos Orixás. É dessa maneira que a jornalista Luana Lázaro, de 42 anos, guarda a imagem de Mãe Olga do Alaketu, uma das dirigentes na linha de sucessão do Ilê falecida em 2005. De acordo com a tradição, o cargo de sacerdote do terreiro só pode ser ocupado por mulheres que façam parte da família. Atualmente está à frente do Terreiro do Alaketu (Ilê Maroialaji) Mãe Jojó, filha de mãe Olga.

A relação de Luana com a matriarca do Candomblé teve início ainda na infância, pois foi pelas mãos de Mãe Olga que a paulista foi iniciada para Nanã, aos dez anos de idade. De acordo com a tradição seguida à risca, o ritual de iniciação foi realizado no Terreiro do Alaketu, em Salvador, na Bahia.

“Eu era uma criança muito difícil. Quando meus pais perceberam que era por influência de minha mediunidade, mãe Olga determinou que eu fizesse o santo”, recorda.

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Depois de iniciada pela então líder do terreiro, Luana foi dada a Mãe Jojó, que na época, era Mãe Pequena da casa e que também ficou responsável por cuidar da vida espiritual da candomblecista. Apesar da distância, Luana cresceu tendo relação muito próxima com o Ilê no qual foi iniciada, sempre comparecendo ao local para tomar as obrigações de anos de iniciação, entre outras responsabilidades.

“Mesmo depois de ter tomado todas as minhas obrigações de anos de iniciada, sempre acompanhei muito Mãe Olga. Sempre tive uma relação próxima com o terreiro e ainda continuo tendo”, afirma.

A relação de Luana com Mãe Olga vem por influência de sua mãe carnal, Marina Lucia Lazaro, de 74 anos, que também foi iniciada por ela. Na época, Luana tinha apenas alguns meses de vida. Mãe Marina, que há 52 anos é dirigente da Tenda de Umbanda Vovó Maria de Angola, foi iniciada pela sacerdotisa quando já tinha casa aberta há 10 anos por determinação do Caboclo 7 Flechas, entidade com quem trabalha.

“Mesmo antes de ter residência aqui, Mãe Olga vinha a São Paulo com muita frequência depois que o período de obrigações do Alaketu se encerrava. Em uma de suas vindas, minha mãe a procurou no hotel onde ela costumava se hospedar para pedir a ela ajuda para fazer o santo. Esse foi o primeiro contato entre elas”, explica.

Assim como a jornalista, sua mãe precisou viajar para Salvador para se submeter ao ritual de iniciação no Alaketu, onde foi iniciada para Oxóssi. Em seu 56° dia de recolhimento, obteve licença de mãe Olga para retornar a São Paulo. O dia do retorno era a véspera do aniversário de um ano de Luana.

“Mãe Olga entrou no avião com minha mãe toda vestida com as roupas características da religião e entregou um prato de ágata à ela, pois ela não podia comer no prato do avião por conta do preceito da iniciação”, lembra.

Mesmo tendo sido iniciada no Candomblé, a sacerdotisa foi aconselhada por Mãe Olga a dar continuidade a seu trabalho à frente da casa de Umbanda que mantém ainda no mesmo endereço, na Vila Romana, Zona Oeste de São Paulo. Lá, Luana trabalha com seu caboclo e outras entidades de raíz umbandista como Preto- Velho, Exu e Pombagira.

Mesmo após o falecimento de Mãe Olga, em 2005, a relação de Luana com o Terreiro do Alaketu se manteve. Quando decidiu levar adiante o sonho da maternidade, a jornalista prometeu uma obrigação a Oxum, caso engravidasse, já que esta Orixá  é ligada à fertilidade. Suas preces foram atendidas e, hoje, seu filho mais velho, Pedro Lazar está com oito anos.

“Quando eu estava grávida de três meses do meu filho mais velho, fiz uma obrigação para Oxum, por conta da promessa que fiz. Preparei um balaio com tudo que pertence aos fundamentos de Oxum. A obrigação foi feita lá na Bahia”, revela.

Muito mais do que Mãe de Santo, Mãe Olga representa para Luana um grande exemplo a ser seguido. Apesar de sua rigidez e do empenho em seguir a liturgia conforme manda a tradição, era muito admirada por seus filhos de Santo em geral.

“Quando eu lembro da minha Mãe Olga, lembro do quanto ela era séria em tudo que ela fazia. Candomblé é seriedade e responsabilidade, é uma coisa que tá dentro de mim. Eu aprendi isso no Alaketu. Mãe Olga não deixava a gente ir pra roda sem verificar se o saiote estava armado como deveria estar”, conta.

Por ser uma casa de tradições históricas, a disciplina é algo bastante característico dentro da doutrina que rege o Alaketu. De acordo com Luana, mesmo com o passar do tempo, nada mudou no terreiro.

“Lá no Alaketu é tudo muito rígido, é tudo muito ao pé da letra. Até hoje, tudo permanece da mesma forma como quando fui iniciada aos dez anos de idade”, constata.

Apesar da rigidez e da disciplina, para Luana, Mãe Olga deixou como grande ensinamento para Luana o respeito e a seriedade com que se deve ter no momento de cultuar as sagradas forças da natureza.

“Religião é entrega. Você entrega sua vida, seu caminho e seus passos na mão de uma pessoa e todo mundo precisa escolher essa pessoa. Eu já nasci com ela escolhida. Mãe Olga foi um presente que a espiritualidade me deu. Assim como nasci com Nanã e Xangô na cabeça, também nasci com a mão dela”, finaliza.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.