Mais que a gira: como o médium aplica os ensinamentos no dia a dia?

Pai Gabriel Sodré é dirigente da Tenda Espírita Caboclo Tupi Seara de Pai Joaquim de Aruanda, em Olaria. Foto: Henrique Esteves

Entende-se por médium a pessoa que pode servir de intermediário entre os espíritos e os seres ainda encarnados. Ou seja, aquele que coloca sua mediunidade em exercício, através da incorporação, por exemplo, se dispõe a servir de facilitador para a prestação da caridade ou um canal para que o Orixá possa trazer seu axé. E mais que isso: o foco das religiões de matriz afro-brasileira é transmitir para os seus adeptos ensinamentos que devem ser colocados em prática no dia a dia. Afinal, até que ponto vai a responsabilidade do indivíduo como médium?  

Apesar de diferentes em diversas práticas, na Umbanda e no Candomblé, existem muitos pontos de convergência, segundo os praticantes destas crenças. Entre eles, a humildade e o amor ao próximo. Para ambas, cultuar divinas forças da natureza ou Orixás requer literalmente que se tenha os pés no chão. São nas atitudes do dia a dia que a mediunidade de cada um se faz presente, e não apenas na hora de vestir o branco ou colocar a roupa do Santo, como defende Márcio de Jagun,  dirigente do Ilé Àṣẹ Àiyé Ọbalúwáiyé. Casa que comanda há 20 anos, em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Pai Márcio de Jagun dá sua opinião a respeito da doutrina fora de casa. Foto: Arquivo Pessoal

“O que se espera é que se pratique os princípios aprendidos, sejam eles espirituais ou comportamentais, não só dentro do espaço do terreiro, mas também, em todos os espaços que este adepto estiver inserido. No trabalho, nas ruas, no seu ambiente familiar,  ou aonde quer que ele esteja. Afinal de contas, no Candomblé, o que nós buscamos são aquisições de virtudes. Entre elas, a paciência, a bondade, a disciplina, a hospitalidade e a solidariedade”, argumenta.

A mediunidade é algo que faz parte da vida de uma pessoa 24 horas por dia, desde o dia do seu nascimento. Isto significa que os orixás e os guias espirituais estão o tempo todo junto daquele que escolheram para auxiliar ao longo da vida. Entretanto, ainda é muito comum a ideia de que esta característica só se deve ser colocada em evidência nos domínios da casa de Santo, no momento dos trabalhos. E há médiuns que agem em total desacordo com os ensinamentos que são passados pela doutrina que rege a religião, quando estão em situações externas.

Praticante do culto de nação Ketu, o sacerdote que tem 38 anos de iniciado, é filho de Babá Pece, do Axé Oxumaré, de Salvador, na Bahia. Márcio acredita que a postura do médium no dia a dia é importante também para a resistência frente ao preconceito direcionado à ancestralidade africana.

“O dia a dia é a oportunidade de colocarmos em prática nossas verdadeiras convicções. É dessa forma que eu tento alertar, que eu tento orientar os adeptos do Candomblé para essa responsabilidade, acima de tudo de resistência”, finaliza.

Pai Gabriel Sodré relata sua visão sobre o tema. Foto: Henrique Esteves

Já no que diz respeito à Umbanda, o líder religioso Gabriel Sodré, de 30 anos, é bem categórico quando o assunto é postura do médium além dos domínios do terreiro.

“Eu costumo falar que eu não tenho nada a ver com a vida do filho do portão para fora, mas eu acho que os modos como o filho se comporta do lado de fora influencia muito do lado de dentro. Acredito que é necessário se ter uma postura mesmo fora do terreiro. Eu costumo cobrar muito meus filho quanto à isso, pois a grande maioria deles são jovens”, afirma o dirigente da Tenda Espírita Caboclo Tupi Seara de Pai Joaquim de Aruanda, localizada em Olaria,  na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Para o sacerdote, é necessário que haja uma coerência entre o comportamento que se adota dentro do terreiro como filho de santo e do lado de fora, no cotidiano. Mais do que isso, é preciso,  antes de tudo, ter consciência da importância da autopreservação.

“Eu acho que a seriedade que a pessoa tem dentro da casa de santo, ela tem que ter do lado de fora. O nosso corpo é aparelho de divindades. Procuro ser certo sempre, sendo uma pessoa íntegra, de moral. Sou um eterno médium, Há diversas pessoas que se espelham em mim. Então, procuro ser correto o máximo possível em minhas ações”, finaliza.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.