Fotografia documental sintetiza a beleza do culto às entidades

Fotógrafa Bruna Prado visita terreiros e procura entender/explicar os preceitos religiosos por meio de seus registros

Gira de Exu e Pomba Gira no terreiro Ile Ase D'Azauane, localizado em Nova Iguacu, Rio de Janeiro. Foto: Bruna Prado

Mais do que registrar imagens, a fotografia tem o poder de eternizar momentos únicos que carregam significados especiais. Entre eles, o culto aos Orixás. E foi assim, através das lentes, que a fotojornalista Bruna Prado, de 40 anos, aos poucos se permitiu conhecer toda a beleza da religiosidade afro-brasileira, desenvolvendo um trabalho documental em casas de axé, há cerca de dois anos.

Depois de trabalhar como diretora de Arte por 15 anos, a publicitária decidiu dar um novo rumo à sua carreira, iniciando a sua trajetória no Fotojornalismo, no jornal Metro, onde trabalhou por cinco anos. Sua relação com a espiritualidade começou quando a carioca por conta própria decidiu registrar momentos de fé dos devotos de São Jorge na Missa da Alvorada que ocorre no centro do Rio. Não demoraria muito para que as manifestações de fé das religiões de matriz africana que acontecem do lado de fora da Igreja chamassem a atenção da artista.

Com o tempo me surgiu a vontade para fotografar a religiosidade do lado de fora da Igreja. Eu me voltei meio que intuitivamente para esse lado, e isso me atraía muito mais do que a Missa da Igreja Católica”, conta.

Naturalmente com o desenvolver de seu trabalho documental, Bruna se afastou do jornal onde trabalhava, até que decidiu seguir sua carreira de forma independente. Por influência de um amigo,  a artista passou a dar cada vez mais profundidade ao projeto voltado para o cotidiano do Axé, aproximando-se do Candomblé. O trabalho, inclusive, serviu como incentivo  para que a sua família se reaproximasse da religiosidade afro-brasileira.

“Minha mãe é baiana e sempre teve contato com a Umbanda, apesar de nunca ter feito parte de uma casa como filha. Esse trabalho é como se fosse um resgate para a minha família que estava afastada da religião”,  afirma.

Ao todo, a fotojornalista já visitou três casas de Umbanda, e uma de Candomblé, sendo esta última o Ile Ase D’Azauane, comandado pelo Babalorixá Luiz Claudio D’Azauane, localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Bruna realizou registros do local ao longo de um ano. A  pouca quantidade se dá pelo fato de a profissional preferir permanecer durante um período de tempo considerável em cada casa que visita. Dessa forma, a artista consegue se conectar de maneira mais profunda com a espiritualidade que envolve o local.  Além disso, o projeto ainda não conta com um nome específico, nem segue um cronograma.

“É um projeto que eu não faço planejamento, eu deixo as coisas caminharem e acontecerem. Estou num processo de aprendizado das religiões, através da fotografia”, explica.

Somado a seu trabalho documental que realiza nas casas de santo, há cerca de 3 anos, a profissional ministra treinamentos. Entre eles, a saída orientada de Fotojornalismo que, inclusive, já foi realizada na Missa de São Jorge junto com o fotojornalista Luis Alvarenga. Além de Pierre Verger, Bruna tem como grande inspiração a fotógrafa Isabel Plá, que considera como sua mestra.

“Considero a Isabel Plá como minha mestra. Ela já realizou um trabalho não exatamente com esta temática, e sim, um resgate à cultura indígena, que de certa forma está relacionada à Umbanda por conta dos Caboclos”, considera.

Trabalhos como o de Bruna, não só trazem à tona a beleza do culto às divindades do panteão africano, mas também resgatam toda a herança cultural deixada pelos antepassados vindos da África. Mais do que isso,  o ato de documentar o cotidiano da liturgia afro-brasileira é um meio de desmistificar todo o estigma negativo que ainda marca segmentos religiosos como a Umbanda e o Candomblé.

“O que me deixa mais triste é a ignorância das pessoas em não se aprofundarem e aprender uma cultura que está ligada à nossa história, ao nosso povo. É a hora de colocar a mão na consciência e buscar a mudança, porque o preconceito vem de nós”, conclui.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.