Um resgate à herança cultural deixada pelo povo Bantu

Documentário mostra a ancestralidade africana na formação da cultura brasileira

Documentário resgata a herança cultural africana. Foto: Divulgação.

O contato com o Candomblé e a vontade de contar a história do povo Bantu, fez com que a jornalista Soraya Públio Mesquita idealizasse o documentário “Mokambo: Nguzu Malunda Bantu (Força da Tradição Buntu)”. Além de idealizadora, a jornalista de 54 anos,  que há 15 se dedica exclusivamente a produzir documentários  é também diretora e roteirista da produção. Junto dela, o roteiro também é assinado pelo co- roteirista Edson Felloni Borges.

A obra é patrocinada pelo Programa Petrobras Cultural 2016 e realizada pela DPE Produções, com produção executiva de Maurício Xavier. Além de mostrar a ritualística de registros feitos no Terreiro Mokambo, em Salvador, na Bahia, casa que já foi agraciada com o prêmio de Espaço e Visibilidade da Tradição Bantu no Brasil pelo Iphan, e é comandada  por Taata Anselmo, importante figura do Candomblé, mestre em Educação Contemporânea, além de doutorando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O documentário também conta com depoimentos de importantes antropólogos e historiadores.  A seguir, a baiana conta como se desenvolveu o processo que levou a esta verdadeira homenagem aos ancestrais.

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O  “Mokambo: Nguzu Malunda Bantu” é seu primeiro trabalho focado na religiosidade e na cultura afro-brasileira?

Não. Em 2004, também fui diretora e roteirista do documentário “Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns”, que é focado na trajetória do povo Fon que se instalou no Recôncavo Baiano. A história do povo Fon é muito bonita e ampla. Grande parte da nossa cultura tem influência da herança deixada pelos escravizados africanos, de um modo geral, o Brasil não se dá conta disso.

Qual é a sua relação com esta religiosidade?

Não sou praticante do Candomblé, mas antes do documentário já tinha ido em algumas festas. No entanto, nunca tive uma relação profunda com a religião, até então.

De que maneira o documentário aborda a herança cultural deixada por nossos antepassados?

O documentário é uma celebração à toda a herança cultural Bantu que está enraizada na nossa cultura,  a exemplo da capoeira, a culinária de dendê, as irmandades religiosas presentes no Brasil…Nós contamos com a participação especial do artista plástico Bel Borba, que durante o filme faz uma escultura no mesmo molde que os escravos Bantu faziam. Através deste trabalho feito pelo Bel, nós homenageamos o povo Bantu que trouxe para o Brasil a cultura da forja do ferro.

Como surgiu a ideia de produzir o documentário? Já conhecia Taata Anselmo

O documentário surgiu quando indiquei Taata Anselmo para dois amigos que queriam jogar búzios. Somos amigos de longa data. Há 25 anos trabalhamos juntos na TV Bandeirantes. Na época, ele era produtor e eu era editora do Jornal da Noite. Mas, apesar de ser amiga dele, ainda não tinha conhecido o seu terreiro. A partir de uma conversa, inicialmente tivemos a ideia de registrar a comemoração de seus 40  anos de santo. Mas conforme fui entrando em contato com aquela cultura que gira em torno do Candomblé, decidi produzir o documentário focando na herança cultural do povo Bantu.

O projeto foi produzido de forma independente?

Não. Foi patrocinado pelo Programa Petrobras Cultural 2016. E como apoiadores culturais tivemos além do Mokambo, o Instituto Gota, Anna Fullor e Duplo Estilo.

Quanto tempo durou o processo de produção do documentário até seu lançamento?

Depois de sermos notificados que fomos aprovados no programa Petrobras Cultural, iniciamos  em 2016 registrando diversas festas que aconteciam no terreiro (Mokambo). Os depoimentos começaram a ser gravados no segundo semestre de 2017.

As gravações forem feitas em outros terreiros?

Não. Todos os registros foram feitos no Mokambo. Lá existe um espaço museológico chamado Kissimbiê Águas do Saber, onde conta a história do povo Bantu e abriga diversos objetos e vestimentas ligadas à religião desde o século XIX. Um dos objetos mais importantes é a cadeira de Jubiabá, que na linhagem ancestral de Tata Ancelmo é seu Bisavô de Santo. Essa cadeira foi sequestrada pela polícia na década de 1920 e ficou 95 anos presa. Ele conseguiu resgatar essa cadeira em 2017 e está lá. Inclusive, teve toda uma cerimônia do retorno da cadeira e que é uma das cenas mais bonitas do filme. Providenciamos também imagens da África para fazer um paralelo.

Que tipo de registro foi feito no barracão?

Registramos cenas do cotidiano do terreiro. Não só o início das festas e rituais, mas também as atividades que ele faz voltadas para a comunidade, como feiras de saúde. Teve também o encontro de índios chamado de trocas de saberes ancestrais. O Candomblé Congo/Angola tem os indígenas como o primeiro ancestral aqui no Brasil. Apesar da herança cultural, o Candomblé não é africano, e sim, brasileiro.

Quem são os historiadores e antropólogos que no documentário contribuem com depoimentos?

O documentário conta com estudiosos e especialistas como: a professora Yeda Pessoa de Castro, que é a única brasileira a defender uma tese de Doutorado em uma universidade africana, e é também membro do conselho do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Ordep Serra é outro, que é um antropólogo muito conhecido nacionalmente e internacionalmente, além de doutor em Antropologia, Mateus Aleluia também contribui. Trata-se de um dos integrantes do grupo Tincoãs e morou por 20 anos em Angola… Ele inclusive, é responsável por uma das trilhas sonoras do documentário. Tem também a etnomusicóloga alemã Katharina Doring, que mora na Bahia há 23 anos e é uma das colaboradoras da tese que defendeu o tombamento do samba, além de outros nomes de peso que deram seus depoimentos.

Veja o teaser do documentário:

Durante as gravações, houve algum momento específico que para você tenha sido marcante?

Todas as celebrações no terreiro (Mokambo) foram muito especiais. É tudo muito bonito, um local onde se sente muita paz.  A energia é muito forte, e é isso que me atrai e me deixa emocionada.

Você pretende futuramente desenvolver outros trabalhos com esta temática?

Sim, pretendo. Essa temática me despertou uma curiosidade interessante, então, pretendo futuramente desenvolver um trabalho com um foco um pouco maior na questão da mulher negra. Quero assumir esta temática em meu próximo trabalho.

De que maneira o público pode ter acesso ao documentário?

Estamos realizando lançamentos. No dia 28 de abril, o Mokambo será exibido na abertura de uma mostra de cinema com temática africana que vai acontecer no Cinemateca Capitólio, no centro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em maio, estaremos no cinema São Luís, no Maranhão. E em junho, abriremos o Festival Afro Bahia, em Whashington, nos Estados Unidos. Futuramente, depois dos lançamentos e de participar de festivais, o filme estará disponível gratuitamente na internet.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.