A serviço da Lei Maior, Exus e Pombagiras regeneram a quem neles se apegam com fé

Com elementos como fogo, fumaça e bebida, eles quebram demanda. Foto: Henrique Esteves/Divulgação.

Entre todas as linhas de trabalho cultuadas na Umbanda – e em algumas nações de Candomblé -, os Exus (não Orixás) e as Pombagiras são as entidades que mais deixam as pessoas intrigadas. Sejam elas, consulentes ou parte do corpo mediúnico de uma casa. Dotados de um grande mistério, nossos compadres e comadres, como são carinhosamente chamados, atuam no polo negativo em nome da luz , a serviço da Lei Maior. Entretanto, mesmo com o aumento do acesso à informação, ainda são espíritos mal compreendidos pela maioria.

Além de serem mensageiros dos Orixás, os Exus e Pombagiras são verdadeiros soldados protetores, que cumprem missões, transitando nas zonas umbralinas do mundo espiritual. Os trabalhadores da Linha de Esquerda assumem a frente no combate às energias e espíritos de baixíssima vibração e também possuem profundo conhecimento de diversos caminhos e trilhas das regiões pertencentes à ‘ força negativa’ do astral.

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O Babalorixá André Luiz Batista, de 33 anos, dirigente da Tenda Espírita Vovô Antilho Renovação da Fé, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, acredita que o preconceito direcionado à Linha de Esquerda tem grande influência da má conduta de alguns médiuns.

“O problema não está nas entidades em si. São as pessoas que mistificam muito, e isso influencia negativamente. Na minha casa, eu, particularmente, adoto um conceito quanto aos trabalhos na linha de esquerda. Tenho certas ressalvas no que diz respeito às vestimentas, por exemplo. Sou contra o exagero. Hoje em dia as pessoas visam muito o luxo, e eu acho que a força da espiritualidade dentro da Umbanda está na fé e na dedicação”, afirma.

A atuação de nossos irmãos  da linha da esquerda é marcada por intensa rigidez, pois para lidar com espíritos de baixa vibração e transitar em regiões infernais  é necessário fazer uso da força. Caso seja necessário, são capazes de mudar a roupagem fluídica de acordo com a necessidade, podendo, inclusive, assumir formas assustadoras, ou o oposto. Dessa maneira, seres espirituais atrasados e disseminadores do mal são combatidos e encaminhados para o caminho da luz ou enviados para regiões adequadas onde suas faltas serão cobradas.

Já nos terreiros, atuam como sentinelas, sempre impondo seu respeito para que sejam mantidas a disciplina e a ordem no ambiente. Por terem grande afinidade energética com os seres encarnados, são verdadeiros especialistas em assuntos ligados à vida terrena e que demandem uma certa urgência. Em seus trabalhos em terra, são responsáveis por quebrar demandas, desmanchar trabalhos de magia negra, realizar desobsessões e descarregos energéticos.

A figura da Pombagira em particular ainda é constantemente interpretada de maneira equivocada. As moças como também são conhecidas, nada mais são que a manifestação do sagrado feminino incrementado com boas doses de autoestima e sensualidade. Conforme comenta Márcio Kain em um vídeo em seu canal no Youtube UMBAND’BOAas comadres representam um estereótipo que foge totalmente à ideia de submissão da mulher.

“(…) A manifestação de Pombagira mostra a força e o poder feminino, a independência da mulher,  a coragem da mulher, que é estar satisfeita consigo mesma… E por ter esta autoestima ela demonstra beleza, sensualidade, vaidade, mas ela geralmente representa uma pessoa de caráter e personalidade forte (…)”, explica.

Ao contrário do que ainda se acredita, Exus e Pombagiras não são espíritos atrasados ainda ligados a vícios e prazeres mundanos pelo fato de estarem num estágio evolutivo inferior em comparação aos Caboclos e Pretos-Velhos. Já alcançaram um avançado grau de evolução espiritual pelos trabalhos que realizam. Mesmo dentro da religião,  ainda há quem acredite que a Linha de Esquerda trabalha para atender caprichos e pedidos egoístas com o objetivo de prejudicar o próximo.

“A força de Exu está ligado ao querer correr atrás, à força de vontade… Exu é o movimento que move o nosso ser”, diz André.

Além do incansável trabalho de combate aos seres malignos e a manipulação de energias densas,  estes seres de grande benevolência são executores do carma, fazendo valer as determinações do plano astral superior. Por isso, os Exus possuem o poder de aumentar ou diminuir o carma do indivíduo, por mais cruel que possa parecer esta ação.

Independente do preconceito, nossos compadres e comadres continuarão sempre trabalhando incansavelmente, não só pelo bem-estar dos médiuns que acompanham, mas também pelo equilíbrio do mundo de uma forma geral. Muito mais do que respeitar, é preciso estar de coração aberto para que a força de Exu possa se fazer presente.

“Tudo na vida você tem que compreender, tem que tentar estudar e tem que tentar se aprofundar, e isso não foge à regra quando o assunto é o trabalho das entidades da esquerda. O médium que estuda e abre seu coração para que esta força atue em sua vida, com o tempo, percebe a beleza que a força de Exu carrega” , finaliza o pai de Santo gonçalense.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.