Quando a ovelha vira algoz

Usando o nome de Jesus, um traficante põe uma mãe de santo sob a mira de uma arma e a obriga a destruir seu próprio centro de umbanda: “Olha só, o capeta chefe tá aqui. Taca fogo em tudo, quebra tudo, apaga a vela porque o sangue de Jesus tem poder. Arrebenta as guias todas, porque todo mal tem que ser desfeito em nome de Jesus. Quebra tudo porque a senhora que é a demônia chefe, a senhora que patrocina essa cachorrada aqui (…)”.

Esse é um trecho de um recente episódio de discriminação religiosa no Rio e a violência usada chocou a muitos. Contudo, ilustra bem o panorama de hoje: o Estado do Rio de Janeiro é líder nos casos de discriminação religiosa no país, sendo as religiões de matrizes africanas os principais alvos. Sempre perseguidas, esse dado poderia não ser uma novidade, mas uma diferença salta aos olhos: a intolerância religiosa aumentou muito e advém, em especial, de atores privados. E o surgimento do neopentecostalismo em 1977 guarda relação com isso.

O discurso adotado pelo segmento evangélico neopentecostal se aproxima do discurso da Igreja Católica na Idade Média, o qual dividia o mundo em polos opostos e estanques: o bem e o mal, o céu e o inferno, o Deus e o Diabo. É a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) quem capitaneia essa construção e sustenta a sua pregação em dois princípios fundamentais: (i) os demônios são os causadores de todos os males que afetam as pessoas e (ii) os demônios têm nome e endereço: são os espíritos, entidades e Orixás das religiões afro-brasileiras e habitam os terreiros ou barracões. A crença no diabo, mais uma vez, vai legitimar perseguições a quem não professa a mesma fé, sendo esses os novos hereges ou bruxas a serem combatidos.

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Declara-se, então, guerra ao mal, que deve ser derrotado através da batalha espiritual. Se o demônio corresponde às entidades que incorporam nas pessoas nos terreiros, essa é a prova que ele está no mundo terreno e precisa ser eliminado ou continuará sendo a origem de todos os problemas, sejam eles sentimentais, profissionais ou de saúde. Essa linha de raciocínio tem o condão de transformar a ovelha em algoz, pois incita as pessoas a guerrearem contra os demônios, que, uma vez visíveis, podem ser atingidos. O reflexo disso são os inúmeros terreiros incendiados, depredados e praticantes de religiões de matrizes africanas agredidos, seja por traficantes que se dizem evangélicos, seja por religiosos comuns, pois a forma de se atingir espíritos e energias é através das pessoas que os recebem.

E toda essa demonização faz sentido quando percebemos a outra estratégia adotada pela IURD: a antropofagia da fé inimiga. A Universal é pioneira em lidar com o ecumenismo da Umbanda e do Candomblé e de absorver alguns dos seus rituais, a saber: a incorporação do espírito santo, a utilização de ervas, as sessões de descarrego na Igreja e a ideia de estender um tapete de sal grosso. Passaram também a evocar entidades conhecidas como os Orixás, Exu, Pretos Velhos com o fim de deturpar o sentido dessas manifestações, atribuindo-lhes cunho pejorativo.

Essa iniciativa da IURD, a princípio, horrorizou os outros templos neopentecostais, mas logo tornou-se modelo a ser seguido devido ao êxito alcançado. No que toca à conquista de novos fiéis, foi uma jogada de mestre: a população mais pobre e a classe média eram acostumadas a procurar rezadeiras, a tomar banho de descarrego ou a receber um passe em terreiros para casos de doenças ou problemas pessoais. De repente, o pastor virou também o “rezadeiro” e a Igreja passou a descarregar seus fiéis e a incorporar os elementos das religiões afro-brasileiras. Para completar, tais templos passaram a fazer parte dos bairros e concentrações urbanas mais pobres que, normalmente, eram lugares ocupados por terreiros de umbanda e barracões de candomblé.

A Igreja Universal constituiu-se, portanto, sob um paradoxo: elaborou uma guerra às religiões de matrizes africanas, porém, no seu processo de constituição, adotou uma estratégia de “antropofagia da fé inimiga”, tornando-se cada vez mais parecida com o inimigo e, ao mesmo tempo, distante do segmento evangélico pentecostal de que é fruto.  Absorve elementos, símbolos e rituais afro-brasileiros e, paralelamente, expurga as religiões de onde os importou, deixando clara a única intenção de se alimentar do que lhes interessa e, assim, atrair os fiéis que frequentavam os cultos afro-brasileiros. Mas só o interesse não é tão convincente, tem que construir uma imagem negativa dos terreiros para, assim, os fiéis criarem repulsa pelos ambientes que já visitaram ou cogitaram visitar um dia: as entidades das religiões de matriz africana foram transformadas em demônios, os rituais praticados nos terreiros em “feitiçaria” e os babalorixás e ialorixás em “serviçais dos espíritos do mal” ou “pai e mãe de encosto”. Quem frequentava passa a acreditar que foi enganado.

Esse discurso, inaugurado pelo Bispo Edir Macedo e sua Igreja, é uma semente plantada para gerar o fanatismo religioso, que se caracteriza pela certeza absoluta nas suas verdades, ignorando um debate em que a melhor ideia irá, naturalmente, sobressair. Descarta-se aqui, conscientemente ou não, a racionalidade, com o fim de defender uma causa em que se está completamente envolvido emocionalmente. Realmente, acreditam ter A verdade revelada por Deus e, por isso, é em vão, para eles, contrapor dogmas divinos e argumentos humanos. O perigo desse argumento é que ele legitima inclusive a barbárie, numa clara opção pelos fins que justificam os meios: para eliminar o diabo e todo o mal que provoca na sociedade, tudo bem incendiar ou jogar pedra em terreiros e seus frequentadores.

O assunto é preocupante porque o fanatismo já provocou muitas tragédias na história. É mais que hora, portanto, de ser identificado, compreendido e combatido e, para isso, é preciso ir na raiz do problema: os discursos de ódio promovidos dentro de cultos religiosos. Hoje, tais discursos não se limitam apenas aos espaços físicos das Igrejas, ganharam a internet, muitos canais de televisão e livros. A massificação da comunicação aumentou o alcance, mas, em compensação, amplificou os discursos dos intolerantes. Cabe, portanto, a atuação do Poder Público em parceria com a sociedade para permitir a liberdade constitucional de todos os indivíduos de poderem praticar as suas religiões e viver de acordo com os dogmas que acreditam, atentos ao fato do seu direito ir, literalmente, até onde começa o do outro.

Bio

Mariana Mattos é Bacharel em Direito formada pela UERJ e atriz, mas hoje trabalha com a atuação levando teatro para as escolas do Rio. Assim como a irmã gêmea, Maria Eduarda (outra colunista deste espaço), ela também frequenta terreiro desde os primeiros meses de vida e encontrou no Terreiro de Xangô, Pai Benedito e Pai Joaquim da Angola o seu verdadeiro lar como médium da corrente. É umbandista com muito orgulho e milita pelos direitos das religiões afro-brasileiras. Sua linha de pesquisa acadêmica trata do discurso do ódio dentro dos cultos religiosos. É ainda integrante do grupo Orgulho da Nossa Fé, em que atua escrevendo sobre temas da Umbanda e interagindo com o público, como forma de incentivar praticantes de religiões afro-brasileiras a assumirem quem são, pois religião compõe a identidade daquele que crê.