Produtora de “O Doutrinador” lança HQ sobre mediunidade e intolerância religiosa

Personagem é médium protetor das casas de Umbanda. Foto: Divulgação.

Depois da bem sucedida História em Quadrinhos “O Doutrinador”, que encerrou a gravação da sua versão para as telonas, neste domingo (1º), a Guará Entretenimento está prestes a lançar mais uma ficção surpreendente, que traz à tona a mediunidade e a intolerância religiosa na HQ “Santo”. A narrativa é de um menino que conversa com amigos invisíveis quando criança e na idade adulta desenvolve a sua mediunidade após presenciar um ataque a um centro de Umbanda. A trama “coloca o dedo na ferida” dos fundamentalistas religiosos e suas ligações políticas, como destaca o editor da Guará Entretenimento, Luciano Cunha.

“A princípio, o objetivo é denunciar a onda criminosa e inaceitável de ataques às religiões afro-brasileiras e o personagem vive esse contexto. Dito isso, a trama também evidencia que, ao aceitar e direcionar a dádiva que é o exercício honesto da mediunidade, o médium se transforma automaticamente num farol de luz para o seu entorno, melhorando a vida de toda a sociedade”, defende Cunha, que é também autor do personagem de “Santo” em parceria com Gabriel Wainer.

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Salvador Sales, o protagonista, vive um conflito interno por não aceitar sua mediunidade. A situação muda quando ele presencia um ataque a um centro de Umbanda orquestrado por uma sociedade secreta ocultista. A partir disso, Salvador decide utilizar seu dom para investigar e combater os agressores, até que descobre que a seita tem como mentor um influente e poderoso político. Com a ajuda de seu protetor espiritual, o justiceiro desmascara a figura pública e encontra um ideal de luta contra falsos profetas. Segundo Luciano, a nova história ainda está em produção e possui previsão de lançamento para o fim do ano.

“Temos proposta de interessados em adaptá-la para uma série de TV, mas a HQ ainda está em produção, com lançamento previsto para dezembro/2018. Mas já vamos começar a disponibilizar as páginas neste mês, no Facebook da Guará”, revela.

A motivação para este tipo de tema se deu por influência da religiosidade afro-brasileira dos criadores.

“Os dois criadores têm raízes espíritas e amam religiões de origem afro. Além disso, há o atual panorama de grave intolerância religiosa em todo o país. Assim como ‘O Doutrinador’, ‘Santo’ quer colocar o dedo na ferida neste momento delicado da sociedade brasileira”, explica.

Para quem é fã de “O Doutrinador”, o longa chega aos cinemas brasileiros em setembro de 2018 e ainda contará também com uma adaptação em formato de série de TV para o canal pago Space, com estreia prevista para janeiro de 2019. As filmagens de ambos os formatos já foram finalizadas.

Com direção de Gustavo Bonafé e Co direção de Fábio Mendonça, a produção cinematográfica traz a história do anti-herói Miguel, um agente federal altamente treinado que vive num Brasil cujo governo foi sequestrado por uma quadrilha de políticos e empresários. Após uma tragédia pessoal, combater a corrupção endêmica torna-se seu principal objetivo. A partir disso, inicia-se sua vingança contra a elite política brasileira durante o período das eleições presidenciais, numa cruzada sem volta contra a corrupção. O Doutrinador ainda traz em seu elenco Kiko nomes como Pissolato  (Miguel), Samuel de Assis (Edu) e Tainá Medina (Nina).

Conforme Luciano, “a Guará quer sempre estar conectada à vida brasileira, mas também nos damos ao luxo de fantasiar um pouco”. Resumidamente, os personagens de HQ que estão mais desenvolvidos pela produtora, no momento, são os seguintes:

“Os Desviantes”

Adolescentes de comunidades carentes acabam servindo, criminosamente, como cobaias para experiências com transhumanismo, clonagem, exoesqueletos. Um experimento dá errado e os meninos precisam fugir e se acostumar à sua nossa vida.

“Penélope”

Uma vida de abusos e violência leva uma jovem mulher à prostituição e ao inferno das drogas. Mas, do fundo do poço, o empoderamento feminino vai clamar por vingança.

“Dislike”

Uma mãe tem certeza que seu filho se suicidou por influência de uma rede social. A empresa nega, mas a polícia agora tem um desafio: a quem prender e condenar quando a rede social começa a matar?

“Guará”

O agronegócio tomou conta de todo o cerrado brasileiro. Mas agora vão enfrentar uma força sobrenatural e folclórica: um lobisomem disposto a equilibrar a região.

“O Finalizador”

Um brasileiro campeão mundial de artes marciais agora vai combater os inimigos da democracia. Nossa homenagem a um clássico herói brasileiro dos anos 60, o Judoca.

“Sangue Quente”

Imagine vampiros adolescentes vivendo sob o calor do Rio de Janeiro. E ainda no fogo cruzado entre milícias e traficantes.

Contos de Òrun Àiyé traz orixás como protagonistas

O artista visual Hugo Canuto, criador do projeto em HQ “Contos de Òrun Àiyé” ou “Conto dos Orixás” defende que as histórias ligadas a herança africana devem ser contadas sem infantilizações que “simplificam a cultura e criam estereótipos”. Nascido na Bahia, ele vivenciou muitos episódios de discriminação e combate às crenças que chegaram ao Brasil no período colonial. Alimentado pelo desconforto e tendo consciência do potencial artístico dos orixás, Hugo escreveu o argumento de uma história que aborda a cultura afro-brasileira em sua pluralidade e encantamento. Assim nasceu o projeto, que se desdobrou numa série de pôsteres com ilustrações de heróis inspirados em orixás e em uma HQ custeada através de financiamento coletivo.

Foi em 2016, quando o desenhista norte-americano jack Kirby, criador do universo Marvel, completaria 99 anos (ele morreu em 1994), que o artista  decidiu homenagear o mestre e criar uma versão de uma icônica capa de Os Vingadores, de Kirby, com personagens da cultura africana, abraçada pelo Brasil. Em vez de Thor, havia Xangô, no lugar de Capitão América, Ogum, e o Homem de Ferro seria substituído por Oxaguiã.

Nas redes sociais, a imagem dos The Orixas (escrito sem acento agudo, propositalmente) criada por Canuto viralizou. Foi o suficiente para dar corda no projeto que o artista tinha há alguns anos, no qual aqueles personagens ganhariam vida nas páginas internas de uma graphic novel. Inscreveu o projeto em um site de crowdfunding (ou “vaquinha virtual”, para os não iniciados no termo) e pediu R$ 12 mil para viabilizar a HQ. O valor arrecadado ultrapassou a meta em mais de 300%.

A importância do projeto Contos de Òrun Àiyé, acredita Hugo, está em adaptar para a linguagem dos quadrinhos algumas narrativas que atravessaram o tempo e as distâncias, mantendo a mesma sabedoria e encantamento de quando eram contadas nas velhas cidades da África ocidental.