Intolerância Religiosa: fios de conta foi pretexto para impedir mãe de buscar filho em colégio

Segundo a candomblecista Viviane Rocha, com a guia no pescoço, foi proibida de falar com uma professora na instituição por estar sem 'trajes adequados'

ios de contas foram o suficiente para Viviane Rocha sofrer preconceito religioso. Foto: Reprodução da Internet

No último dia 20 de março, a professora Viviane Tavares da Rocha, de 39 anos, foi mais uma vítima de intolerância religiosa. Impedida de buscar seu filho Nicolas, de 8 anos,  na escola, e “convidada a se retirar”, a carioca conta que foi tratada de maneira hostil por estar utilizando um fio de contas. O incidente aconteceu no Colégio Adventista de Jacarepaguá, localizado no bairro Praça Seca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando ela tentava buscar o filho e ter uma conversa com uma professora do menino que, segundo ela, estava sendo negligente em reiteradas situações com o aluno devido ao preconceito religioso.

“O diretor me impediu de entrar e falar com a professora e disse que eu não estava usando trajes adequados, pois estava vestida de macumbeira. Imediatamente acionei a polícia e fomos todos para a 28ª DP (Campinho), onde fizemos um B.O. e um R.O.”, relata.

Segundo a candomblecista, o problema já vinha se desenvolvendo desde o início do ano, após a chegada de uma nova professora na instituição.

“Esse ano entrou uma professora nova no colégio e, desde o começo do ano, eu vinha observando que ela não corrigia os livros e os trabalhos do meu filho. E eu sinalizava isso para o colégio todos os dias através da agenda escolar dele”, conta

Ela ainda compareceu ao colégio mais três vezes para verificar com a Direção o que estava acontecendo.Todas elas sem sucesso. Além de ir pessoalmente para entender o que ocorria, a mãe de Nicolas ainda realizou diversos telefonemas. Entretanto, a situação continuava a mesma.

“Tinham questões erradas e mal formuladas na prova do Nicolas, ela corrigiu a prova do meu filho de forma errada. Eu como professora de Português vi que ela errou na correção”, destaca.

Mesmo após diversas notificações, por parte de Viviane, a instituição continuou apresentando uma postura omissa em relação ao problema que estava deixando a mãe do aluno cada vez mais incomodada.

“Quando a direção da escola decidiu se posicionar, fui orientada a orar para que tudo se resolvesse e terminasse bem”, relata.

A situação permaneceu a mesma e Viviane não conseguia entender qual poderia ser o problema já que seu filho sempre apresentou bom desempenho escolar. Nicolas, que atualmente está cursando o quarto ano do Ensino Fundamental, é aluno da instituição desde o primeiro ano.

Após dois dias do ocorrido, a professora compareceu a uma audiência pública na Alerj, onde são tratadas questões pertinentes à crimes de intolerância religiosa. O caso teve grande repercussão no Facebook com mais de 10 mil curtidas e quase cinco mil compartilhamentos, após o relato feito por ela em sua página. A carioca recebeu diversas mensagens que demonstraram solidariedade à sua dor. Além disso, alguns pais de alunos do Colégio Adventista de Jacarepaguá também se mostraram envergonhados pela atitude da instituição.

“Alguns pais de outros alunos, que não são bitolados, vieram me pedir perdão por se sentirem envergonhados pela postura da instituição. Ainda existem algumas pessoas boas nesse mundo”, pontua.

Se por um lado Viviane recebeu dezenas de mensagens demonstrando solidariedade à sua dor como mãe e adepta do Candomblé, por outro, a carioca foi alvo de ofensas vindas de funcionários da empresa educacional.

“Funcionários do colégio vieram me xingar no privado, disseram que sou louca, desequilibrada e que sou enviada de satanás”, relata.

Depois das devidas providências tomadas pela mãe da criança, a instituição de ensino entrou em contato com o pai de Nicolas, o militar Joelson Roque, de 47 anos, informando que o aluno seria expulso por conta do ocorrido.

“O diretor ligou para meu ex-marido e informou que meu filho seria expulso por escandalizar o nome da instituição”, revela.

Mesmo após o lamentável ocorrido, a mãe de Nicolas teme que seu filho seja expulso da instituição, o que para ela, pode ser prejudicial para o currículo escolar de Nicolas e prejudicar o processo de transferência para outro local de ensino.

“Espero que a justiça seja feita, que meu filho não seja punido e que a escola seja punida por ser intolerante. E vamos falar a verdade: na hora de pegar o meu dinheiro da mensalidade ninguém se importou por eu ser macumbeira”, rebate.

Antes do ocorrido, a fanpage da instituição possuía um grande número de avaliações negativas em comparação à quantidade de avaliações favoráveis, conforme disse Viviane.

“Antes do ocorrido, as avaliações negativas no Facebook eram maiores que as positivas. Eles estão apagando todas as notificações negativas da escola. Tenho o print de todas as avaliações negativas”, declara.

Antes de entrar para o Candomblé, crença que segue há cerca de 2 anos, Viviane foi membro da Igreja Adventista durante 20 anos.

“Fui adventista durante 20 anos e sei como eles se unem nessa hora para que o caso seja abafado”, relembra.

Filha de uma evangélica e de um umbandista, hoje a carioca faz parte do Ilê Axé Ayê de Odé, casa que pertence à nação Ketu e fica em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela é dirigida por mãe Maria José de Oxum. Viviane comenta que como mãe e candomblecista se sente extremamente desrespeitada e humilhada.

“Me sinto desrespeitada e humilhada. Na página da escola houve uma nota dizendo que eu estava declarando inverdades”, afirma.

Em nota oficial publicada pela instituição em sua página, o Colégio Adventista de Jacarepaguá nega as acusações. Veja a íntegra:

“Por meio desta nos posicionamos a respeito das informações divulgadas em mídias sociais, através de relato postado pela senhora Viviane Tavares da Rocha, mãe de um de nossos alunos.

O relato não corresponde à verdade dos fatos, e, inclusive, outros pais presenciaram o ocorrido, além dos profissionais que atuam na unidade escolar.

Os Adventistas do Sétimo Dia têm sido ativos promotores da liberdade religiosa e a Rede Adventista de Ensino segue o mesmo princípio, em 165 países onde está presente há mais de 120 anos.

Salientamos ainda que, apenas nesta unidade escolar, 86,88% dos alunos não são adventistas do sétimo dia, ou seja, 1.146 alunos e suas famílias professam outras crenças religiosas, ou não possuem crença. As ações realizadas pelo Colégio Adventista de Jacarepaguá visam garantir a integridade física, emocional e educacional de seus alunos e servidores”, finaliza.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.