Desvendando os mitos sobre a incorporação mediúnica

Semi-consciência e consciência são mais comuns do que se imagina

A incorporação é um acoplamento de auras. Foto: Henrique Esteves.

Todo início é acompanhado por dúvidas, incertezas e mais uma série de dilemas que são comuns entre aqueles que estão dando os primeiros passos. Seja na vida profissional, ou no começo da vida adulta, quando se é jovem, não tem jeito, o novo sempre assusta. E na jornada mediúnica não é diferente, principalmente no que diz respeito à incorporação. Mesmo que o mundo se encontre em plena era da informação, existem diversos mitos que precisam ser esclarecidos.

Para Alexandre Cumino, que ministra o curso de Teologia de Umbanda Sagrada desenvolvido por Rubens Saraceni no site Umbanda EAD, nos pensamentos do médium se “acumulam o fantasma da mistificação, do estar sendo observado, questionado, da insegurança”.

“Pior ainda fica a situação quando se depara com a questão do ser ou não um médium consciente. A consciência e a inconsciência durante o transe mediúnico são questões muito particulares inerentes a cada pessoa e uma não desabona a outra em sua autenticidade. O mais correto seria dizer que todo médium é semi consciente porque a incorporação é um estado alterado de consciência, ou seja, é um transe no qual duas consciências interagem”, lembra.

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Entre as modalidades mediúnicas presentes nas religiões de matriz africana, a incorporação é uma das mais utilizadas na Umbanda, onde são cultuadas as entidades que são mensageiras dos Orixás. No Canbomblé, os médiuns que possuem esta capacidade servem como canal para a manifestação dos Orixás, já que nem todas as nações cultuam os famosos espíritos trabalhadores como Exus, Caboclos e Pretos Velhos. Diferenças à parte, dentro dessas duas crenças, a insegurança ainda é bastante comum entre os iniciantes.

Antes de tudo, é preciso levar em consideração que existe todo um processo até que se atinja o que chamam de “uma incorporação firme”, e um dos grandes mitos existentes ainda hoje é sobre a inconsciência durante a ocorrência desta manifestação. De fato, nos primórdios da religiosidade afro-brasileira, manifestações espirituais ocorriam com o médium totalmente inconsciente, tornando-se completamente alheio ao processo. Mas, com o passar do tempo, tornou-se predominante a quantidade de médiuns que durante os trabalhos não perdem a consciência. E, com isso, criou-se o mito de que uma incorporação para ser considerada autêntica precisa ocorrer de maneira integral, o que para alguns, só se dá de forma inconsciente.

Em seu canal no Youtube, o umbandista Adérito Simões aborda que, para ele, ainda que o médium esteja em um estado total de inconsciência, não há um total controle do espírito sobre o corpo do médium.

“(…) Incorporação inconsciente, pode ser simplesmente o fato de a pessoa não lembrar ao final da incorporação. Tem algum controle de alguma coisa, nem que seja a própria visão. Está ali, enxergando como se fosse um sonho. Mas está ali, porque é o corpo do médium, você também é seu corpo (…)”, afirma o sacerdote  no vídeo “Incorporação inconsciente x consciente”.

O Babalorixá Caccioli de Ayrá também comenta na sua página no Youtube, o tema em relação ao transe dentro do ritual pertencente ao Candomblé, onde os mitos também são muito presentes e tornam um tanto quanto confuso o processo de iniciação.

“(…) A incorporação é aos poucos. Primeiro, a pessoa tem que entrar no transe. Então, ela pode estar incorporada 1%,  10%… Ela pode estar semi-incorporada e realmente é um conflito, você não sabe se está fingindo, se você está maluco… Até a incorporação ficar forte dentro de você, você vai passar por estes questionamentos(…)”, explica.

O pai de Santo ainda traz a reflexão sobre o mito do controle total assumido pelo Orixá no momento do transe.

“(…) O que você vai manifestar é o axé que está dentro de você, é aquilo que manifesta o transe. Vem dessa porção de Deus, porque se fosse do Deus (Oxóssi Xangô…) ele já iria saber tudo, da bagagem de informação dele. E a coisa não funciona assim (…)”, argumenta.

Ainda é muito comum que médiuns sintam-se completamente confusos por conta da lucidez que se mantém durante toda a incorporação, pois a ideia de que a firmeza está atrelada à este fato ainda é muito forte. Hoje sabe-se que o fenômeno das incorporações consciente e semi-consciente são tão naturais e tão genuínas quanto a inconsciente.

De acordo com Rubens Saraceni, “a incorporação é um acoplamento de auras. Ou seja, a entidade espiritual acopla sua aura na do médium e então a incorporação acontece. Na incorporação os chakras do espírito e os do médium se ligam, assim, ambos estão ali. Raros são os casos nos quais o espírito do médium é deslocado a outras paragens a fim de que permaneça, no momento da incorporação, apenas o espírito do guia”.

*Estagiário supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.