Um manifesto contra a intolerância religiosa na presença de Exu

Espetáculo teatral “Libertador - Performance ritual Padê de Exu” está em cartaz em março e abril, no Rio

Espetáculo é uma performance sobre poema Padê de Exu. Foto: João Maurício de Bragança/Divulgação

Nos tempos em que a intolerância religiosa se mostra cada vez mais agressiva, fazer parte de uma produção que traz para o público a religiosidade afro-brasileira como tema central não é só um trabalho artístico, mas também um grito de resistência. No espetáculo “Libertador – Performance ritual Padê de Exu”, o ator Thiago Viana mostra seu talento em uma representação ritualística que reconta passagens da criação do mundo através da cosmogonia Yorubá.

A peça está  em cartaz no Memorial Municipal Getúlio, na Glória, Zona Sul do Rio, até o mês de abril, com exibições aos sábados, às 17h, nas seguintes datas: 17, 24 e 31 de março; e 14, 21 e 28 de abril. Além de executar movimentos de dança e interpretar o monólogo, o jovem de 29 anos também é responsável pelo roteiro que é baseado no poema “Padê de Exu”, de Abdias Nascimento.Com uma carreira de doze anos, o artista que também é diretor e produtor conta o quanto se sente realizado com o projeto.

“Estou muito feliz com o trabalho. Foi um presente, acredito nos Orixás, que reservaram e me deram este caminho”, afirma Thiago, que é adepto do Candomblé iniciado desde junho de 2017 para Oxóssi.

A ideia que resultou na criação de “Libertador”, surgiu a partir do convite que recebeu para interpretar um poema de Abdias Nascimento, durante o Sarau da Resistência, organizado pela Confraria do Impossível.

“Quando chegou até mim a oportunidade de encenar Abdias Nascimento, não tinha um tema ainda, mas fui pesquisar e encontrei Padê de Exu. Confesso que o poema mexeu muito comigo”, relembra.

Sob o som da percussão que fica por conta do músico Marcos Run, a performance ritualística é apresentada com uma narrativa dinâmica que traz recortes que se complementam e se movimentam entre a presença de Exu na criação do mundo. A produção mostra o alcance da necessidade de combate às práticas de violências submetidas aos templos de matrizes africanas e a reflexão sobre questões sociais emergentes da população negra. É neste momento que Thiago Viana traz para o público a urgência do poema Padê de Exu.

“Nunca tinha visto alguém invocar Exu na arte (literatura). Passar por questões sociais, além de tão atuais. Tive receio,muitos receios, o poema não perdoa nenhuma injustiça e o nome de Exu está presente em diversos parágrafos”, destaca.

O ator já participou de outras produções que abordam esta mesma temática. Seus primeiros trabalhos foram aos 17 anos em “Palavras de Castro Alves” e “Escrava Anastácia”. Em 2014, dirigiu, roteirizou e atuou em “Histórias Afro-brasileiras, Cenas Itinerantes”, espetáculo que foi encenado durante quatro anos no Circuito Histórico de Celebração à Herança Africana, que ocorre na Gamboa e na Saúde. Thiago, que considera o atual trabalho uma grande realização, pretende trazer para os espectadores outros projetos que abordem este tema.

“Manterei outros trabalhos relativos ao tema. Será um xirê de roteiro: Ogum, Oxóssi… Descobri que este é meu caminho, nos trabalhos realizados por mim”, considera.

O “Libertador” também estará em cartaz no festival de curitiba, e em novembro retorna para o Memorial em uma nova temporada. Thiago também conta que em novembro irá trazer uma nova performance ritualística.

“Em novembro, estreamos “Libertador – Performance ritual Ogunhê” e damos uma parada com o “Libertador – Performance ritual Padê de Exu”.

“Libertador” conta com a direção de Gatto Larsen, figurinos de Rubens Barbort, produção executiva de Carlos Nascimento. E ainda a equipe de produção: Wilson Assis, Bárbara Nana, Lourdes, Cléo e Lucas, além do apoio de toda a equipe do Memorial Municipal Getúlio Vargas.

O Memorial Municipal Getúlio Vargas possui lotação de 60 lugares. A venda de ingressos se inicia às 16h e o valor é de R$ 30,00 (inteira) e R$ 16,00 (meia).

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista Íris Marini.