Tá no sangue: Candomblé de pai para filhos

Pai Beto de Ayrá dirige casa de Candomblé desde os 18 anos de idade e hoje tem a companhia da família carnal

Pai de Santo comanda a casa há 42 anos. Foto: Henrique Esteves

Nada mais natural para um adepto de religião de matriz africana do que ter em seu dirigente um grande exemplo a ser seguido. A admiração se torna ainda maior quando o elo com o Babalorixá vai além da família no santo. A fé na espiritualidade e o amor pelos Orixás é algo que está no sangue de Cristiane Scuvero, filha carnal de Pai Beto de Ayrá, que comanda o Abassá de Obairá, na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro, há 42 anos.

A candomblecista segue os passos de seu pai na religião desde muito pequena. Sua iniciação para Oxumaré ocorreu aos 11 anos de idade, pelas mãos de uma antiga mãe pequena na casa.  A Ekedi conta que o sacerdote não abre mão de praticar a caridade para atender aqueles que com fé buscam por auxílio espiritual.

“Apesar da casa ser de Candomblé, meu pai não cobra nada a quem nos procura, seja por um trabalho que é feito, uma consulta, ou o jogo de búzios. Todo esse tempo a casa se mantém sem estipular valor a nenhum procedimento”, destaca.

As atividades da casa ocorrem quinzenalmente alternando entre sessões de consulta, outras voltadas para saúde e/ou aulas com foco no desenvolvimento da religião. Além do culto aos Orixás, a casa que pertence à Nação de Angola também reverencia entidades de raiz umbandista.       

“Na casa de meu pai, nós também fazemos festas em homenagens aos guias que vêm da Umbanda. Essas festividades acontecem até o mês de maio. A partir do mês de Julho, começam as festas de Candomblé, onde iniciamos homenageando os Orixás masculinos”, explica.

Assim como Cristiane conta com orgulho como seu pai dirige o Abassá de Obáirá, o Babalorixá de 60 anos conta também como é gratificante para ele ter seus filhos seguindo a religião que pratica há tanto tempo.

“Pra mim, ter meus filhos (carnais) seguindo a religião é a melhor coisa que tem, eu nunca forcei… Me sinto realizado ao ver como eles colocam em prática todos os ensinamentos que foram passados a eles desde pequenos”, diz o dirigente, que também é pai biológico dos Ogãs Miguel Scuvero, de 33 anos, e Alexandre Scuvero, de 39.

Assim como Cristiane, os dois foram confirmados por outro sacerdote, o Pai pequeno Twa Seji. O fato de Pai Beto não ser o responsável pela iniciação de seus três filhos se deu por conta da doutrina que lhe foi passada por sua mãe de santo, Manunguê de Oxum, e que segue à risca em sua casa.

“Essa não é uma regra exatamente da religião, mas fui doutrinado assim por minha falecida mãe de santo e assim sigo até hoje”, defende.

Uma das entidades “mentoras” da casa é Babá Agba, como conta o Babalorixá.

“Babá Agbá viveu na Nigéria, morreu com 102 anos de idade e fazia trabalhos de saúde na tribo em que viveu usando órgãos de animais. Ele conta que depois teve uma encarnação no Brasil onde viveu como branco e, nesta vivência, aperfeiçoou seus conhecimentos na área da saúde”, contextualiza.

Pai Beto se divide entre as atividades do Ilê e sua loja de artigos religiosos no Grajaú, na Zona Norte. O sacerdote vive do negócio há 30 anos. Já o Abassá de Obairá, fica na Avenida dos Mananciais, 628, casa 28, Taquara, Jacarepaguá, Rio de Janeiro.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.