Preservando na alma a lembrança e a crença às divindades

Página reúne imagens atuais, informações e fotos antigas da casa. Foto: Divulgação.

Ocupar o cargo de Egbomi dentro do Candomblé é uma responsabilidade e tanto. Quem conhece os bastidores da religiosidade afro-brasileira sabe que cultuar os Orixás não é uma tarefa nada fácil. Afinal, assim como em quase todas as situações da vida, quanto maior o cargo, maior a responsabilidade. Se por um lado estar entre os mais experientes de uma casa de axé é uma missão complexa, por outro, ficar encarregado de reavivar a memória de um icônico ilê é algo que requer o mesmo nível de paciência e dedicação.

Desde 2015, o jornalista Mingos Lobo se dedica a manter viva a memória do Ilê Axé Opô Afonjá Eden, localizado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. O candomblecista, que ocupa o cargo de Egbomi na casa comandada pela Yalorixá Célia Pimentel, teve a iniciativa de criar a fanpage que leva o nome do terreiro. O projeto surgiu com o intuito de trazer á tona a história do templo que caiu no esquecimento com o falecimento de sua antiga dirigente, Ondina Valéria Pimentel, conhecida como Mãezinha.

Leia também: 

Rei da Lira, o “Seu 7”, é um dos Exus mais famosos do século 20, no Rio

Espetáculo Cosmogonia Africana remonta a criação do mundo segundo a cultura iorubá

 

Tudo começa em Salvador, no ano de 1910, quando o Ilê Axé Opô Afonjá foi fundado por Eugênia Anna dos Santos, a Mãe Anninha. Nascida em 1869, a sacerdotisa que era filha de africanos da etnia Grunci foi iniciada para Xangô aos 17 anos. Pessoas que mais tarde viriam a se tornar importantes personagens dentro da história da casa foram iniciadas pelas mãos de Mãe Anninha. Entre elas, Mãezinha, raspada para Oxalá. A candomblecista assumiu o cargo de Yalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em 1964.

Mais tarde, Mãezinha abriu o terreiro em São João de Meriti, chamado de Abá Ylê Cruz do Divino Axé Opô Afonjá. Por conta do bairro onde fica localizado, passou a ser conhecido como Ilê Opô Axé Afonjá de Eden, pela relação com a casa matriz de Salvador. Durante os anos em que atuou como dirigente do templo de Eden, a mãe de santo se dividia entre Salvador e o Rio de Janeiro.  Após seu desencarne, a missão de conduzir o Ilê do Eden ficou a cargo de seu irmão Beto de Oxalá. Com a passagem de Mãeizinha, muitos filhos voltaram para Salvador e a história da casa acabou caindo no esquecimento mesmo mantendo suas atividades após o falecimento de sua fundadora.

O tempo passou e Mãe Célia assumiu o comando em Eden, posto que ocupa há quase 30 anos. Depois de anos de esquecimento, Mingos Lobo, após passar a fazer parte da casa Ilê Axé Opô Afonjá do Eden, assumiu para si a responsabilidade de manter viva a memória da histórica casa de axé. O jornalista afirma que, apesar do sucesso da fanpage, o processo não foi simples.

“No começo, as pessoas ficaram um pouco receosas, principalmente os mais velhos. Dentro do Candomblé as coisas são um pouco complexas, e o pessoal da Bahia costuma ser bastante desconfiado”, conta.

Com a popularidade da página, que possui conteúdo focado na história do ilê, filhos afastados há mais de 30 anos retornaram ao terreiro e outras pessoas também se mostraram interessadas na trajetória do Ilê Axé Opô Afonjá. O projeto conta também com a curadoria de Egbomis de Salvador e já alcançou a marca de 2 mil seguidores.

*Estagiário supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.