Rei da Lira, o “Seu 7”, é um dos Exus mais famosos do século 20, no Rio

O assentamento de Seu 7 foi feito anos depois das primeiras manifestações da medium Cacilda. Foto: Divulgação/Fanpage Seu 7 da Lira

Popular, polêmico, e um trabalhador incansável a serviço do bem em prol daqueles que com muita fé e devoção o procuravam. Essas são só algumas das qualidades daquele que se tornou uma entidade icônica dentro da história da Umbanda no Rio de Janeiro entre as décadas de 70 e 80. Seu 7 da Lira, o Exu mais famoso do século 20 deixou sua marca registrada durante todos os anos em que esteve em terra através da médium Cacilda de Assis. Por conta dos grandes feitos de seu guardião, a Yalorixá não poderia passar despercebida.

O agente de viagens Adão Lamenza, de 50 anos, além de vivenciar de perto as impagáveis histórias de Seu 7, teve também a oportunidade de ser seu cambono, atividade que exerceu durante 30 anos. Sua relação com Mãe Cacilda e com o famoso compadre foi de longa data.

“Minha relação com Mãe Cacilda foi sempre a melhor possível, inclusive sou amigo da família Assis até hoje. Não fui seu filho de santo e não trabalho mediunicamente, contudo fui com muito orgulho cambono por quase 30 anos de Seu 7 da Lira”, afirma Adão, que é um grande entusiasta da trajetória da sacerdotisa.

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Nascida em 15 de março de 1917 na cidade de Valença, sul do estado do Rio de Janeiro, Mãe Cacilda manifestou os primeiros sinais de sua mediunidade muito cedo, ainda durante sua infância. A menina que, até então, era uma criança comum, como qualquer outra, teve sua primeira manifestação mediúnica em seu aniversário de 7 anos de idade, quando repentinamente desmaiou e entrou em coma. Por recomendação de um de seus tios, uma rezadeira foi solicitada, mas os pais da pequena se mostraram resistentes à ideia. Após aceitarem a ajuda, logo foi constatado que o caso se tratava de uma “possessão” espiritual.

De acordo com Adão, o assentamento de Seu 7 foi feito anos depois das primeiras manifestações de Cacilda, no dia 13 de junho de 1938. O carioca conta que desde pequeno já frequentava as giras comandadas pelo célebre Exu.

“Desde que me entendo por gente, minha mãe me levava quando eu ainda era de colo, para assistir as giras do Seu 7 da Lira”, destaca.

A efetividade da caridade praticada por este espírito trabalhador atraía milhares de pessoas para o terreiro de Mãe Cacilda que teve seu primeiro endereço no bairro de Cavalcanti, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Com a grande quantidade de frequentadores, o espaço ficou pequeno para comportar tantos fiéis e a Casa de Santo mudou-se para o Santíssimo, na Zona Oeste.  Adão diz ter presenciado verdadeiros milagres durante todos os anos em que Seu 7 realizou consultas ao público.

Na esquerda, Adão Lamenza, na
função de cambono. Foto:
Divulgação/Fanpage Seu 7 da Lira

“Presenciei muitas curas, muito amor, muita alegria e noites tão maravilhosas e encantadas que passavam num piscar de olhos. O trabalho verdadeiro de Seu 7 da Lira magnetiza a todos, tamanho era o seu poder de prestar caridade dando a todos: caminho, saúde, e segurança de vida”, relembra o admirador da icônica entidade que chamava a atenção, não só pelo seu ‘poder’, mas também pelas suas vestimentas extravagantes que o caracterizava.

Com o passar dos anos e o avançar da idade, aos poucos Mãe Cacilda e Seu 7 foram saindo dos holofotes, sua última manifestação para o público foi no ano de 2002. A partir de então, a presença em terra da entidade passou a ser restrita somente a família, até 2009, ano do falecimento da lendária Yalorixá.

A admiração pela entidade era tão grande que a ideia de manter a memória do Exu viva foi colocada em prática pela primeira vez no ano de 2005 com a criação de uma comunidade no extinto Orkut. Com a migração para o Facebook em 2010, foi criada a fanpage Seu 7 da Lira, onde são publicadas diversas fotos e as inúmeras histórias deste querido guardião.

“Primeiro eu criei em 2005 no Orkut uma comunidade para o Seu 7 e logo depois evoluí. Em 2010, migrei para o Facebook, com o intuito de divulgar a histórias belíssimas de Seu 7 da Lira. E, obviamente, com o íntimo desejo de que esse fato importantíssimo da história da Umbanda não seja varrida pelo esquecimento do tempo”, defende.

Após o falecimento de Mãe Cacilda, a entidade deixou ordens expressas para que a casa em Santíssimo não continuasse as atividades. Seu pedido, é claro, foi respeitado. Os assentamentos de Seu 7 seguem sendo cultuados, cuidadosamente, pela família Assis até os dias de hoje, e seu nome é sempre louvado pelos filhos de santo de Mãe Cacilda que se tornaram sacerdotes e hoje possuem casa aberta.

*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.

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