Ofá de Oxóssi é símbolo da Oficina Cerâmica Francisco Brennand

Renomado artista pernambucano, com exposição na Caixa Cultural, no Rio, sentiu-se atraído pela ferramenta quando visitou a Bahia

Há mais de 45 anos em reclusão artística, o pernambucano Francisco Brennand é pintor, ceramista, escultor, desenhista, tapeceiro e ilustrador. Começou na arte em 1942, durante a juventude, ao conhecer o artista plástico Abelardo da Hora. O artista, que está com uma exposição inédita, aos 90 anos de idade, na Caixa Cultural, no centro do Rio, até o dia 11 de março, tem como símbolo de sua Oficina Cerâmica, em Recife, o ofá de Oxóssi.

“Numa das viagens que fiz à Bahia, encontrei todos os símbolos de orixás amarrados num arame. Não sei por quê, me chamou particularmente atenção o símbolo de Oxóssi e trouxe ele para minha oficina no Recife. A fábrica está incrustrada em uma floresta. Se há um patrono natural só poderia ser Oxóssi”, afirma.

Veja outras aplicações do ofá de Oxóssi espalhados pela oficina neste link, do portal Croove.

A Oficina Brennand surge em 1971 nas ruínas de uma olaria do início do século XX, como materialização de um projeto do artista.  Antiga fábrica de tijolos e telhas herdada de seu pai, instalada nas terras do Engenho Santos Cosme e Damião, no bairro histórico da Várzea, e cercada por remanescentes da Mata Atlântica e pelas águas do Rio Capibaribe, a Cerâmica São João tornou-se fonte inspiradora e depositária da história de Brennand e hoje é considerada um museu de arte brasileira.

“Eu não sabia nada sobre Umbanda. Oxóssi, filho de Iemanjá, deus caçador que frequentava as florestas e – não sendo um inimigo do homem – afastava o homem. As plantas e animais eram agradecidos a ele… Passei a usar o símbolo e o carrego sempre. Se eu abrir a camisa aqui, vocês vão ver. O símbolo de Oxóssi passou a ser a marca e a bandeira da fábrica, como a de um exército. Aqui é uma cidadela, uma bandeira a ser defendida”, explica.

 

A exposição Francisco Brennand – Mestre dos Sonhos reúne cerâmicas, pinturas e desenhos criados pelo artista pernambucano aclamado mundialmente. O patrocínio é da Caixa Econômica Federal e do Governo Federal. Já a curadoria e o projeto expográfico são assinados por Rose Lima. São 31 obras do acervo original de Francisco, criadas em diversas fases da sua carreira. Seus trabalhos evidenciam temas como reprodução, mitologia, sexualidade, fauna e flora, personagens históricos e divindades, tudo permeado por signos da tradição popular do Nordeste, bastante valorizados em suas criações.

Em 75 anos de trabalho artístico, Brennand soma mais de 90 exposições entre Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Uruguai, EUA, Portugal, Espanha, além de diversas cidades brasileiras. Hoje, aos 90 anos, se dedica exclusivamente à pintura, atividade que iniciou a sua carreira como artista.

A mostra reflete parte do universo místico e fantástico criado pelo artista na Oficina Cerâmica Francisco Brennand e no Parque das Esculturas, dois importantes espaços culturais mantidos em Recife (PE) e que reúnem mais de duas mil obras de arte.

“O público vai conhecer o homem Brennand e a riqueza da sua arte. A exposição pontuará seu timbre nordestino com referências diversas à sua família, à literatura, às vivências adquiridas e interações com outros artistas como Abelardo da Hora e Cícero Dias, seus tutores, e os amigos de sua geração que se influenciavam mutuamente, como Ariano Suassuna e Lina Bo Bardi”, destaca Rose Lima.

Com realização da Via Press Comunicação, Francisco Brennand – Mestre dos Sonhos estreou em Salvador, passou pela CAIXA Cultural São Paulo e agora está no Rio de Janeiro. Além de oportunizar o público a conhecer a arte de Brennand, a exposição é também uma homenagem em vida ao trabalho de um dos artistas plásticos mais importantes do país na atualidade.

Ordem cronológica

Dispostas em quatro alas, as obras em exposição são organizadas cronológica e criativamente, costuradas por uma linha do tempo que perpassa os 90 anos de vida de Brennand. Em cada visita, o público será convidado a uma viagem centenária que começa em 1927, no bairro da Várzea, subúrbio de Recife (PE), no local onde hoje está a Oficina Cerâmica Francisco Brennand.

Artista expõe seu acervo aos 90 anos de idade. Foto: Divulgação.

Serão exibidas peças representativas que vão desde o começo de sua carreira, a exemplo do quadro Autorretrato aos 19 anos (1947), até outras mais recentes, como a pintura Toques (Série O Castigo) (2013). Além dos quadros e desenhos, a mostra dá destaque às cerâmicas, obras que o notabilizaram internacionalmente. Entre elas, as cerâmicas vitrificadas La tour de Babel (1975), Antígona (1978) e Pelicano (1988).

Na ambientação da galeria, a proposta busca uma experiência de imersão visual e sonora que remete o público à Oficina, onde está a maior parte do acervo monumental de Brennand. Grandes painéis fotográficos – reproduções em profundidade de ambientes do local – são somados à sonorização de cantos gregorianos, som marcante do museu-ateliê em Pernambuco e, juntos, transportam o público por um passeio sensorial.

A curadora mescla aos trabalhos de Brennand fotos do arquivo pessoal do artista em que aparece com seus pais, esposa e amigos, como Abelardo da Hora e Ariano Suassuna. A mostra apresenta ainda conteúdo audiovisual composto pela exibição do filme documentário Francisco Brennand (2012), dirigido por Mariana Brennand Fortes, sobrinha-neta do artista. Em outro espaço, a combinação entre tela e ‘parabólica’ sonora, uma instalação de áudio, apresentam as suas intervenções artísticas na Bahia.