Grupo Especial do Rio de Janeiro: Um manifesto contra a intolerância na Sapucaí

Divulgação/Alex Nunes

Em tempos onde a intolerância se torna cada vez mais agressiva, a abordagem de algumas escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que trazem como tema a cultura e a religiosidade de origem africana e brasileira, agora, mais do que nunca, é um ato de resistência, um pedido por mais respeito. Esse tema ressalta a influência da África para a riqueza cultural do Brasil, que têm a diversidade oriunda da miscigenação como uma de suas mais marcantes características.

E por falar em intolerância, a Beija Flor de Nilópolis traz para a Marquês de Sapucaí a reflexão sobre a dificuldade do ser humano em aceitar o diferente e lidar com aquilo que foge de sua compreensão. É como acontece no conto de 1818, em que o Dr. Frankenstein renega e abandona o estranho ser criado por ele em laboratório, a partir da junção de diferentes pedaços de gente e costurados de maneira rudimentar. O clássico, que completa 200 anos de seu lançamento, compõe o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar – Os filhos abandonados da pátria que os pariu”. Essa abordagem traz à tona diversas questões problemáticas que se encontram em bastante evidência na nossa sociedade. Entre elas, a intolerância religiosa que tem como base o sensacionalismo praticado por líderes religiosos protestantes que estimulam a perseguição às religiões de matriz africana. O enredo chama a atenção para a valorização e o enaltecimento da ancestralidade africana que dá forma a diversos elementos de nossa cultura e fé, historicamente marginalizadas.

Assim como fez em 1963, com o emblemático desfile na Presidente Vargas que contou a trajetória de Xica da Silva, o Salgueiro irá levar mais uma vez para a Avenida um enredo que enaltece a mulher negra. De anônimas à famosas, a escola de samba tijucana irá contar suas histórias e conquistas de grandes mulheres, como as Yamin, uma feiticeira africana. O enredo é uma viagem no tempo que vai desde os primórdios da humanidade até os dias atuais. Essas mulheres representam ainda o poder oculto e feminino, a experiência das mulheres mais velhas, que são aquelas que dominam os saberes das folhas e são grandes curandeiras que preparam o ebó para o Oboró e para a Yapeabá. Elas reverenciam e apaziguam as mães primeiras, são as senhoras dos pássaros da noite, as energias geradoras da vida e controladoras da morte.

A Estação Primeira de Mangueira, por sua vez, traz em seu enredo uma crítica ao atual prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que diminuiu a verba destinada ao carnaval. A verde e rosa vai mostrar que, em meio a tantas demonstrações de preconceito, o samba está se reafirmando cada vez mais como um ato de resistência numa sociedade que se demonstra intolerante. Apesar do foco do enredo, a crítica chama a atenção sobre o fato de que a medida adotada pelo prefeito estimula ainda mais reações preconceituosas, que chegam até a cultura afro-brasileira.

Mesmo após quase 130 anos da abolição da escravidão, “o povo negro ainda sofre as consequências deste sombrio capítulo da história”. Essa realidade é retratada no enredo da Paraíso do Tuiuti. “Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?”.  Assista ao clipe da Verde e Rosa:

A agremiação defende que a negritude e toda sua herança cultural e religiosa ainda continuam aprisionados ao preconceito. E a desigualdade de oportunidades segrega cada vez mais.