Batuque, Umbanda e Quimbanda para além das fronteiras geográficas

Não sabia que na Argentina havia tantos terreiros. Registrados, são 1,5 milhões de religiosos que praticam as crenças de matrizes afro-brasileiras, segundo representantes deste país. No Uruguai, também tem um número aproximado a este. Em setembro do ano passado, passei cinco dias na Argentina e mais cinco dias no Uruguai, a convite de dirigentes de casas de santo para “fazer” Umbanda. Eles pregam o Batuque, a Umbanda e a Quimbanda.

A Umbanda deles têm suas peculiaridades. Cultuam Preto Velho, Caboclo e Ogum; A Quimbanda reverencia Exú; e o Batuque assemelha-se ao Candomblé, com a diferença de que não consideram Oxumaré e Logun Edé.

Os Ogãs são denominados Tamboreiros e têm essa função como uma profissão formal.

Tudo é tão bonito de se ver quanto aqui. Outros países praticam esta fé, sendo cada uma delas a sua maneira. Foi uma experiência sensacional!

Orixá lá canta, dá consulta, passes e não se vestem com as ornamentações do santo. Os médiuns usam coloridas indumentárias, porém, não a específica do Orixá, como ocorre no Brasil, por exemplo.

Quando cheguei, fui para a casa de um Zelador de Santo chamado Marcos de Xangô, gaúcho e morador da Argentina há 30 anos. Canta, toca, é pai de santo. Lá, alguns Tamboreiros são pai de santo e incorporam. No café da manhã, havia uma mesa com diversos tamboreiros da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Canadá para conversarem e cantarem pontos em uma mistura de ritmos e línguas inesquecível.

Saber que na Argentina as pessoas têm total conhecimento sobre os pontos brasileiros e gostam das cantigas que cantamos foi surpreendente. Um encontro em um Clube, às 21h de uma quinta-feira reuniu duas mil pessoas. Quando comecei a cantar, todos conheciam as músicas e acompanhavam. Vozes em casteliano cantando Xangô, Ogum etc. Algo inimaginável. Graças ao universo digital, hoje é possível levar o cântico da nossa religião pelo mundo.

Curioso é que, no Brasil, o Batuque só existe em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. É uma nação que vem de Oió, que por aqui conhecemos como a cidade de Xangô, na Nigéria. Bem diferente do que aprendemos.

A velocidade do toque do atabaque no Batuque também é bem mais ligeira do que a que estamos acostumados. Em Porto Alegre, fui convidado a fazer uma festa de Exu e reparava a aceleração do toque, que não me é comum. Foi quando comparamos o que era feito lá com o que ocorre no Rio. Disseram que no Sul a Umbanda é de Caboclo, Preto Velho e Ogum. Em contrapartida, nas terras cariocas, cultuamos todas as entidades e nove orixás: Oxalá, Iemanjá, Oxum, Ogum, Xangô, Iansã, Oxóssi, Omolu/Obaluaê e Nanã Buruquê.

Para o Uruguai, o convite veio do zelador Wilman de Ogum. Ele disse: “Não quero que você vá para participar de nada, e sim para passear. Você é meu convidado”. Eu aceitei. Mas na semana em que cheguei, ia ter na casa dele uma gira de Quimbanda, de Exú.  O terreiro era menor do que o quintal, que era bem amplo. Foi necessário fazer a cerimônia no corredor da casa, nesta área externa.

Um menino de dez anos foi trazido pela mãe, vindo de outra cidade, para tocar atabaque enquanto eu cantava. Ele começou a pegar o atabaque e cantar tudo que interpreto, incluindo o “Brado de Xangô”.  É gratificante saber que as crianças renovam a nossa religião. Crianças cantando e frequentando as casas de axés!

Agradecimento aos amigos Felipe de Oxalá e Martins de Xangô que também me receberam generosamente na Argentina.