Racismo Religioso

É muito comum em rodas de conversa, em seminários e em políticas públicas ouvirmos especialistas e o próprio povo de santo discutirem o problema da intolerância religiosa no país. O que se pretende no presente artigo, no entanto, é convencer o leitor a enxergar o referido problema sob uma outra perspectiva: no caso das religiões de matrizes africanas, a intolerância religiosa nada mais é do que pano de fundo para um racismo velado. Com a promulgação da Constituição Cidadã, que elencou uma série de direitos e garantias fundamentais, cresceu a necessidade na sociedade de adequação à figura do politicamente correto. Dessa maneira, o racismo como outrora fora exposto sem qualquer pudor, hoje é travestido em piadas e em mitos que são reproduzidos para justificar o ataque a tudo que advém dos negros.

Ao longo da história, pudemos perceber que o caminho encontrado para exaltar a superioridade dos brancos foi o de subjugar a raça negra, seja para atender à corrida imperialista, seja para permitir a manutenção da estrutura colonial. A devastação de terras africanas era, portanto, justificável; a escravidão também era justificável; toda atrocidade era passível de explicação – e até de naturalização – a partir do momento em que a raça dos oprimidos fosse inferiorizada. Depreciar, atribuir fraquezas, defeitos e prejuízos à raça mais vulnerável torna-se, então, o subterfúgio perfeito para anestesiar o restante da sociedade, que, ao longo da história, banalizou e apoiou os maiores exemplos de crueldade perpetrados contra os negros, sob a crença de que sequer estavam cometendo crimes contra seres humanos.

Dessa maneira, não se pode admitir falar em intolerância religiosa pura e simplesmente, tendo em vista que o estigma da religião pressupõe que, de alguma maneira, a religião discriminada ameace o poder da religião predominante. No entanto, a história nos mostra que as religiões de matrizes africanas nunca tiveram possibilidades concretas de subversão do poder. O que embasa a discriminação e o ódio destinado às religiões afro-brasileiras é o estigma que foi implantado na sociedade desde antes da escravidão, que ficou incrustado na mente das pessoas e foi reproduzido durante todas essas gerações: o racial.

Em função disso, inferiorizamos, amaldiçoamos e demonizamos as religiões afro-brasileiras porque, na verdade, o problema está na matriz delas: africana. São permanências de um Brasil do passado que criminalizou os batuques e a capoeira. Sempre tentaram apagar a conexão do Brasil com a África porque o padrão a ser seguido era o do branco europeu. Essas religiões são o projeto de embranquecimento que fracassou. Logo, incomodam. Inventamos, portanto, mitos, deturpamos a essência da palavra macumba, chutamos as oferendas, apedrejamos os seus praticantes e depredamos seus terreiros. Estamos retornando à época da caça às bruxas e ninguém está se dando conta disso.

É racismo religioso porque a discriminação é voltada contra as tradições e a religiosidade de um povo. Pouco conhecem dos rituais e da liturgia das religiões afro-brasileiras para desclassificá-las e atacá-las, mas assim o fazem em função de sua origem (africana) e da raça que representam (negra).  Por mais que seja fácil visualizar o racismo religioso quando perpetrado contra um praticante negro, a verdade é que o branco que contraria e rechaça a visão eurocêntrica, que sai do “reino de Deus” para pisar num terreiro, com as guias e roupas de santo, ao som dos atabaques também sofrerá porque a discriminação, no fundo, não está dirigida à cor de quem a pratica, mas à cor da fé: negra.

Bio

 Maria Eduarda Mattos é advogada formada pela UERJ, mas atualmente trabalha como atriz, levando teatro para as escolas do Rio. Frequenta terreiro desde os primeiros meses de vida e encontrou no Terreiro de Xangô, Pai Benedito e Pai Joaquim da Angola o seu verdadeiro lugar como médium da corrente. É umbandista com muito amor e milita pelos direitos das religiões afro-brasileiras. Sua linha de pesquisa acadêmica trata do tema racismo religioso. É ainda integrante do grupo Orgulho da Nossa Fé, em que atua escrevendo sobre temas da Umbanda e interagindo com o público, como forma de incentivar praticantes de religiões afro-brasileiras a assumirem as suas identidades religiosas, sem medo da discriminação.