O amor pelos Orixás sob outra perspectiva: conheça o Yalodê Fotografia

Projeto de Clara Nascimento registra cerimônias de Candomblé no Rio e pretende se expandir pelo Brasil

Fotos: Yalodê Fotografia

O amor incondicional pelos Orixás somado à paixão pela fotografia só poderia gerar o seguinte resultado: a criação de um projeto que registra momentos ímpares durante os rituais de terreiros de religiões de matriz africana e afro-brasileira. Chama-se Yalodê Fotografia. A fotógrafa e Filmmaker Clara Dias Nascimento eterniza verdadeiros momentos de fé e devoção realizando visitas a casas de santo, registrando toda a grandiosidade destas religiões. Carioca, de 23 anos, é formanda do curso de Cinema e Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá.

“Pelo ProUni, bolsa de 100%. Acho importante dizer isso. Uma pessoa de terreiro, de origem popular, estudando Cinema, sim”, reforça a jovem que também possui formação em Vídeo e Fotografia pela Oi Kabum! Rio Escola de Arte e Tecnologia – uma escola de arte para jovens de baixa renda.

A fotografia faz parte da vida de Clara desde sempre. A lembrança que tem de sua infância é a máquina analógica que sua mãe tinha e que registrou diversos momentos da família. Seu tio, também tinha uma relação próxima com a função.

A relação com as religiões de matriz africana vem também desde muito cedo, pois sua mãe submeteu-se ao ritual de iniciação para Oyá, no Candomblé, aos 31 anos, ainda grávida de Clara. Sua avó, inclusive, é dirigente de um terreiro de Umbanda.

“Minha família é quase toda de religiões de matriz africana”, ressalta.

Adepta do Candomblé, a carioca é Egbomi filha do Babalorixá Léo Danadana, iniciada para Yemanjá Ogunté no Ilê Axé Ofá Toyé. Apesar de seu interesse por moda, o foco  de clara sempre foi direcionado para a fotografia que registra momentos.

“Pegar as pessoas desprevenidas e mostrar pra elas depois sorrisos que elas não sabiam ter. Era hipnótico pra mim”, lembra.

A ideia de criar um projeto autoral surgiu quando Clara começou a estudar Cinema, roteiro e montagem durante a graduação. Com isso, ela pôde entender de forma técnica o conceito de narrativa onde uma imagem pode contar uma história em qualquer enquadramento. E, apesar de ter crescido dentro do Candomblé, a fotógrafa permaneceu um tempo afastada. Foi no momento de seu retorno que começaram a surgir as primeiras ideias do que viria a se tornar o Yalodê.

“Nessa mesma época retornei para o Candomblé e foi inevitável juntar uma coisa com a outra. Comecei a pensar em fazer foto em terreiros”.

A carioca começou a repensar a fotografia de Verger – fotógrafo franco-brasileiro que tem como referência, quando conheceu o trabalho do Ogan Roger Cipó.

“Achei que eu devia mostrar para as pessoas o meu mundo, minha raiz, com todo amor que eu tenho”, disse.

A vontade de colocar o projeto em prática amadureceu a partir da reflexão de Clara sobre ser alguém que cria imagens e que também é iniciada no santo.

“Sou muito grata ao pai Cipó. Ele não sabe, mas, com certeza foi o pontapé que eu precisava para entrar nesse caminho de fotografia de axé, que eu hoje não me imagino sem fazer”, afirma.

Reverência à Yemanjá

A escolha do nome Yalodê se deu por Clara ser filha de Yemanjá. Segundo a moça, a sabedoria, a elegância, a serenidade e a força das grandes Mães Senhoras é que guiam sua vida e seu trabalho. A jovem define seu trabalho artístico como “um projeto que utiliza a fotografia como ferramenta de valorização da ancestralidade, eternizando em imagens momentos entre o humano e o sagrado nas religiões de matriz africana”.

“Procuro fazer esse trabalho da maneira mais discreta e menos agressiva possível. O principal objetivo é esse: retratar com sutileza e respeito o amor, a beleza e a força da ancestralidade”, explica.

O primeiro registro de uma casa de santo ocorreu em 2016, em um Olubajé na casa de Pai Jair de Ogum, no Ilê da Oxum Apará, por intermédio de seu amigo Luciano de Omulu.

“Graças ao Pai Omolu correu tudo bem, todos gostaram das fotos e eu percebi que queria fazer isso de fato. Desde então, nunca mais parei”.

Desde que começou com o trabalho de registrar o sagrado das religiões afro-brasileiras, Clara já visitou sete terreiros e, em geral, foi bem recebida em todos os templos que já passsou. Ainda que em determinados casos alguns sacerdotes não autorizem os registros fotográficos, a artista lida bem com o fato.

“Alguns zeladores, inclusive, apesar de me darem o aval para que as imagens fossem produzidas, não permitiram que eu as divulgasse. Lembro-me de cada dia, de cada foto. Todos, sem exceção, me ensinaram alguma coisa. Mas alguns me tocaram mais profundamente do que outros, como a imagem em que Omulu dança com deburus voando sobre ele”, relembra.

Outro momento significativo para Clara é a imagem que ela produziu do Odun Etá de sua irmã Taiana de Oyá, onde o Orixá abraça sua mãe pequena Obasy. O gesto da divindade repleto de amor e carinho tocou a fotógrafa de tal maneira que ela afirma se emocionar toda vez que lembra da cena.

Um dos terreiros mais distantes que a carioca teve que visitar fica na cidade de Itapecerica da Serra, no estado de São Paulo. Para ela, a distância não é um empecilho.

Para 2018 a fotógrafa pretende expandir seus horizontes e visitar novos terreiros fora do Rio de Janeiro. E Com isso conhecer novas pessoas, aperfeiçoar suas técnicas e poder “representar ainda mais seu amor pelos Orixás através do Yalodê”. Um de seus principais objetivos é “orgulhar seus irmãos de fé, seu pai e sua família”, afirma a idealizadora do projeto.

Clara também pretende superar a dificuldade que afirma ter com fotos posadas. Um de seus planos para o projeto é incluir ensaios temáticos. A ideia de produzir uma série documental também está entre os objetivos futuros da jovem.  Seu foco é unir o trabalho já feito no Yalodê à sua experiência com audiovisual.

A artista ainda conta com a ajuda da designer e ilustradora Leticia Quintilhano, responsável pela identidade visual e toda a parte gráfica do Yalodê.

“Sem ela, o projeto não teria a cara que tem”, reconhece.

Além da designer Leticia, a escritora Lívia Barbosa empresta seus poemas para que eles sejam utilizados nas legendas das fotos.  Amigos e familiares também estão inclusos entre os colaboradores que a ajudam a tocar o projeto.

*Estagiário de Redação sob supervisão da jornalista Íris Marini.