Espetáculo Cosmogonia Africana remonta a criação do mundo segundo a cultura iorubá

As apresentações acontecem nos dias 10 e 11 de março, no Centro Coreográfico, com entrada franca

Ana Catão é a idealizadora do espetáculo. Foto: Divulgação.

Como surgiu o mundo e como chegamos até aqui? O espetáculo “Cosmogonia Africana – A Visão de Mundo do Povo Iorubá” traz para o público o mito da criação do universo segundo as tradições culturais do povo iorubá. As apresentações acontecem nos dias 10 de março, às 19h, e 11 de março, às 18h, no Teatro Angel Viana – Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, na Rua José Higino Vianna, 115, na Tijuca, na Zona Norte da capital carioca, com entrada franca, mediante retirada individual do ingresso a partir das 16h, no dia das apresentações.

Idealizado pela bailarina e professora de dança afro, Aninha Catão, o projeto é patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e realizado em parceria com o grupo Tambor de Cumba, com a proposta de fomentar o conhecimento sobre uma das diversas manifestações culturais africanas.

Baseado no trabalho do Babalaô Marcelo Monteiro, a apresentação de dança aborda a criação do mundo e sua ligação com os orixás, por meio de danças específicas da cultura iorubana. Para isso, o espetáculo conta com a atuação de seis bailarinos que representam os elementos primordiais da criação da Terra como o fogo, a água, a terra e o ar, assim como as divindades africanas, sob direção artística e também atuação de Aninha Catão.

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Após as apresentações, haverá um breve bate papo com o Babalaô Marcelo Monteiro sobre sua pesquisa a respeito da cultura iorubá e com a diretora artística Aninha Catão sobre a concepção e desenvolvimento artístico do espetáculo.

O Tambor de Cumba

Fundado em 2011 por Aninha Catão, o Tambor de Cumba carrega em toda a sua trajetória o reconhecimento por promover as tradições culturais de matriz africana. O grupo é um dos pioneiros em atividades culturais no Cais do Valongo, hoje patrimônio mundial da UNESCO.

O Tambor de Cumba propaga a conscientização da cultura negra como resgate da identidade e integração social por meio das artes afro-brasileiras, sobretudo a dança, entre elas, o jongo, o coco, o samba de roda, a ciranda, o maculelê, a capoeira, o afoxé, o maracatu e a dança afro contemporânea.

Leia a História da Criação do Mundo segundo a cultura Iorubá, que será contada através da dança, no espetáculo, nas palavras de Marcelo Monteiro:

Elédùmarè/Senhor do Universo, “saturado” de tanta energia emanada por ele mesmo, “explode” e se subdivide nos Osa/Divindades: Omi/Água; Ilè/Terra; Òfúrufú/Ar; Iná/Fogo e seus desdobramentos (Odò/Rio, Òkun/Mar, Òsa/Lagoa, Òjo/Chuva, Igbó/Floresta, Aféfe/Vento, Ara/Raio, dentre outros).

Disposto a criar o Aye/Mundo Físico – vida apresentou às suas divindades duas cabaças, uma contendo uma massa negra e outra uma massa branca (hoje representada pelo Èko ou Akasa/mingau feito de fubá de milho branco), além de uma árvore denominada árvore da vida. Pondo a prova que: a divindade que conseguisse colocar uma cabaça em cada mão e a árvore na cabeça, iria criar o aye. Como nenhum dos Osa conseguiu realizar o intento, Elédùmarè, então, criou uma divindade, representação dele mesmo, ou seja, Orun+mi+ela = Universo+minha+ação => Orunmilá = Minha ação do Universo. 

Orunmilá tendo conseguido realizar a tarefa, recebeu o saco da existência, além das cabaças e da árvore. Atirou na imensidão do Universo a terra contida no saco da existência. Enviou um camaleão – hoje símbolo de Elédùmarè e Orunmilá – para pisar na terra, comprovando a sua firmeza, e uma galinha para espalhar a terra (ilè nfé / terra que se espalha, origem do nome da cidade de Ilé Ifè – berço da civilização yorubá). Já na terra plantou a árvore colocou as duas cabaças questionando Elédùmarè quanto aos próximos procedimentos para criação do aye. Foi então orientado a juntar o conteúdo das duas cabaças e no dia seguinte, antes do sol nascer, deveria destapá-la, nascendo então Esu Igbá Keta – a terceira cabaça. 

Elédùmarè orientou-o, ainda, que sobre Esu deveria jogar água todos os dias antes do sol nascer para que crescesse e se multiplicasse. Atitude hoje reproduzida no processo de iniciação. 

Assim iniciou-se o ciclo de criação e reprodução da humanidade. Cabendo a Orunmilá, o testemunho do destino, o controle de todas as vidas humanas no aye. Aos Osa que, como parte integrante de Elédùmarè, continuaram juntos dele, coube a tarefa de escolher a cabeça daqueles que nasciam. Logo, Orí/cabeça + Osa/divindade = Orisa. Esu, por ter sido o primeiro da existência genérica que constitui cada um de nós (argila), teve a felicidade de ter a sua cabeça escolhida por todas as divindades da natureza, recebendo o título de Enugbarijo – o boca coletiva. 

Muitos anos se passaram, famílias, aldeias, vilarejos, cidades e demais grupos étnicos foram sendo formados, e espalhados por todo aye, até que um dia, Orunmilá se sentindo cansado e sem condições de coordenar tanta gente, solicitou que os Orixás viessem até o aye para lhe ajudar. Na solução do problema, Elédùmarè verificou em cada grupo étnico constituído, àquela pessoa que mais se destacara como Onílè/Senhor da Terra (senhor de muitos filhos e de vasto território) ou como Ìdílé/Importante personalidade da família (aquele que apesar de não ter filhos ou terras, era considerado pela família como benfeitor) a fim de dar-lhes o seu Ìpònrí (força vital) fazendo com que ele representasse o orixá que havia escolhido a sua cabeça. Assim citamos, por exemplo, a força e representação do fogo, atribuída à: Sango na cidade de Oyo; Aira em Save; Oramfé em Ifè; “Zaze em Angola”; “Elemusat na cultura Omoloko do povo Kathókee”; “Hevioso no Dahome”; etc. Estes Esa/Ancestrais foram, após a morte, divinizados pelo seu povo e hoje são reconhecidos como a representação viva dos orixás. 

Em cada canto desse planeta, seja na áfrica negra ou não, em qualquer cultura que reconheça a força e a importância dos elementos da natureza apontando uma divindade, existe a ação e a força vital de Elédùmarè.

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