“Rei do Candomblé”, Joãozinho da Gomeia, é exemplo de ascensão negra por meio da religiosidade

Livro “GomeiaJoão: a arte de tecer o invisível”, do jornalista, professor e escritor Carlos Nobre, reúne histórias desta personalidade no Axé de Salvador

João Alves Torres Filho, o Joãozinho da Gomeia (1914-1971) é um caso clássico de ascensão negra via religiosidade afro. Nascido na pequena Inhambupe, a 153 Km de Salvador, devido a mediunidade que aparece  desde criança, torna-se pai de santo de candomblé de caboclo e atrai atenção da elite e seu terreiro dispara na preferência popular em todo o Brasil.

Segundo contam, ele se torna, talvez, naquela época, anos 1930, o primeiro sacerdote masculino a quebrar com a hegemonia das matriarcas do candomblé que eram as religiosas que mais destacavam na mídia e na louvação popular. Com popularidade de JG, ele passa a dividir o espaço midiático com as demais matriarcas baianas. Virou moda nas ruas de Salvador dizer “vamos no candomblé do João”, na periferia da cidade.

O livro “GomeiaJoão: a arte de tecer o invisível” (Centro Portal Cultural, RJ, 2017), do jornalista, professor e escritor Carlos Nobre já teve quatro lançamentos no Rio de Janeiro e em três universidades. Em 23 de março de 2018, ele será lançado no Centro Cultural de Cabo Frio, durante as comemorações do nascimento de Teixeira e Souza (1812-1861), autor do primeiro romance no Brasil chamado “O filho do pescador”.

“Ele (Joãozinhoda Gomeia) aparece diferente e não como um pai de santo enclausurado, que fica recluso em sua casa religiosa. Ele aparece como cidadão, intervindo com o mundo e um precursor de ações sociais”, disse Arlene de Katende, presidente do Centro de Integração Social InzoNzambi de Nova Iguaçu(RJ).

Professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio e professor do curso de pós-graduação lato sensu História da África do Departamento de História da PUC-Rio, o autor Carlos Nobre é Mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido Mendes. O escritor também criou as obras “Guia Patrimonial da Pequena África”e “Um abraço forte em Zumbi”.

Entre 2015 e 2016, o antigo terreiro da Gomeia, no bairro Centenário, em Duque de Caxias, foi escavado por uma equipe de 17 antropólogos e arqueólogos do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Durante esse trabalho, os estudiosos localizaram no local a antiga casa do caboclo Pedra Preta, entidade do candomblé de caboclo que era protetor de Joãozinho da Gomeia.

E, “GomeiaJoão: a arte de tecer o invisível”, revela-se ainda que ele foi protagonista de, pelo menos, umas 15  rupturas em sua vida civil e religiosa: desentendimentos com outros pais de santo, mudanças bruscas nos ritos do candomblé, incômodos que sua presença provocava nos outros quando aparecia na mídia e direção personalista de sua casa de santo.

Nessa obra, Nobre diz acreditar que JG  foi um pioneiro em acessar gente importante, desde Salvador, quando atraia a atenção da elite para sua casa de santo. O escritor Jorge Amado foi um ogã honorário Gomeiae na sua casa carioca dois ex-presidentes da República, Getúlio Vargas e Juscelino Kubischek se consultaram com ele, segundo alguns remanescentes do antigo terreiro da Gomeia.

“Joãozinho olhava para uma pessoa e via o que estava na cabeça dela”, relembra Ana Maria Costa Ribeiro, astróloga, diretora da Urantiam.

Para fazer a obra, Nobre diz que utilizou recursos próprios, pois, não teve bolsas para fazer pesquisas aprofundadas, por exemplo, em Salvador, onde pretendia pesquisar em arquivos de jornais, bibliotecas, centros de estudos afro, terreiros, entre outros espaços.

Em vista disso,  ele se concentrou em reler tudo que se escreveu sobre o pai de santo, ouviu pessoas ligadas a ele, pesquisou pela internet e  aplicou um olhar diferenciado sobre o material apurado, se dedicando em ampliar as lacunas deixadas por outros pesquisadores.

Também fez entrevistas exclusivas com antigos integrantes do terreiro caxiense como o antigo ogã Claudio Coelho, de 84 anos;   a professora Sandra dos Santos, a Seci Caxi, apontada como sucessora de JG e diversos pais de santo e babalaôs que acompanharam a trajetória de JG.

O livro também mostra a guerra pela sucessão de JG após sua morte em 1971. Segundo Nobre, a guerra pelo trono da Gomeia já vinha acontecendo desde 1966 quando o pai de santo mostrou sinais de decadência física e espirituais em função de estar desgastado pelos longos anos em administrar seu axé, pelas milhares de iniciações de novos filhos de santo que fez,  pelas inúmeras oferendas aos deuses, por atender vasta clientela e estar participando em outros estados- como São Paulo – de cerimônias de consagração de religiosos de outros terreiros aliados.

A briga pela sua sucessão dividiu o chamado “estado-maior da Gomeia”, ou seja, os religiosos do Axé Gomeia mais ligados ao pai de santo.

O livro mostra que, sete dias após sua morte, houve um jogo de búzios comandado pelo pai de santo Sebastião Francisco dos Santos (1930-1973), o Tião de Irajá, que determinou que o trono da  Gomeia  deveria ficar com  menina de oito anos chamada Sandra Regina Reis dos Santos, de nome de santo Seci Caxi.

 

Colaborou: Carlos Nobre.